sexta-feira, 15 de maio de 2020

TARADO









                                                      Tarado









   Ontem chegando em casa, ao parar o carro vi, pelo retrovisor, a Jeralda, filha da minha vizinha, correndo em direção `a casa ao lado.
   Sua mãe, que estava no portão recolhendo a correspondência, a recebeu.
   Ao sair do carro ainda ouvi seu discurso nervoso:
-  Sabe aquele tarado que dizem estar solto pela cidade? Sentou ao meu lado no 
ônibus
   Quase morri de medo...
   Quando ela viu meu sorriso, respondeu:
-  Não ri não! Eu quase morro de susto e você fica rindo? E' porque não foi com você... E 

   se uma tarada sentasse ao teu lado, no ônibus, e quisesse te levar para casa dela? Disse    a menina, afagando seu cabelo, uma das caracteristicas mais importantes, 
   segundo ela, em sua aparencia. Sua mãe uma vez comentou que, se algum dia algo 
   acontecesse `aquele cabelo, a menina, provavelmente, se suicidaria...
   Não disse nada porque, certamente, ela não concordaria com a resposta...
   Uma tarada, ao meu lado, querendo me levar? Nunca tive essa sorte!
   Mas, escrevi um poema a respeito do evento... 


   Subi no ômbus correndo,
   fugindo de um tarado,
   de medo o peito doendo
   virei e o vi' a meu lado...

   - Amor, toma essa balinha,
   pra adoçar sua boca.
   Eu sei que você vai ser minha, 
   na sua cabeça oca...

   Desci do ônibus com medo
   correndo pra minha vo'.
   - Você acordou t
ão cedo!
   Me disse ela com do'...

   - Não e' isso não vovo',
   eu vi' um tarado na rua,
   me pegou quando estava so'
   distraída, no mundo da lua...

   Com meu cabelo na mão
   dizia que me amava.
   Gritei: - Me larga, se não...
   Me largou, enquanto gritava...

   Limpei o cabelo enojada,
   xingando a sua mãe...
   - Não faz assim minha amada!
   - Ici, prenez a ma main!

   Eu acho que era um Frances,
   falava todo enrolado,
   babando que nem Pequinês,
   fazendo um bico pro lado...

   Mais tarde ao computador,
   olhando noticias de gente,
   eu li com grande pavor:
   o tarado estava doente...

   - E agora, o que vou fazer?
   Perguntei para minha mãe.
   - Não sei o que te dizer! 
   Vou pensar, te digo demain...

   - Falei com o meu doutor,
   contando o teu problema.
   Me disse com muita dor
   como resolver o dilema...

   - Vais ter que o cabelo cortar!
   Todinho! Deixa-lo pelado,
   pra então poder se livrar
   da doença daquele tarado...




Copyright 3/2020 Eugenio Colin. 

domingo, 10 de maio de 2020

MÃE









                                               Mãe




              Para completar o homem, Deus a fez mulher...
              Mas para participar do milagre da vida, Deus fez a mãe.

              Para liderar uma casa, Deus fez a mulher...
              Mas para edificar um lar, Deus fez a mãe.

              Para estudar, trabalhar e competir, Deus fez a mulher...
              Mas para guiar a criança, Deus fez a mãe.

              Para os desafios da sociedade, Deus fez a mulher...
              Mas para o amor e carinho, Deus fez a mãe.

              Para fazer aquele trabalho, Deus fez a mulher...
              Mas para embalar o berço e construir um carater, Deus fez a mãe.

              Para ser princesa, Deus fez a mulher...
              Mas para ser rainha, Deus fez a mãe.





Copyright 5/2011 Eugene Colin

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O MELHOR DA FESTA









                                                         O Melhor da Festa








   Amando Nabo Seta, um Português que havia chegado ao Brasil com apenas três anos de idade, possuía uma característica importante que o diferenciava de noventa e nove por cento de seus compatriotas; so’ gostava de mulher loira.
   `As vezes, na rua paquerando, nem olhava para outra mulher que não fosse loira. Para sua sorte, não se importava se o cabelo fosse pintado, contanto que fosse amarelo, tudo bem. Por outro lado, a única maneira de saber se aquela linda mulher que, eventualmente, chamara sua atenção era loira de verdade, não poderia ser verificada imediatamente...
   Sabia muito bem que, se por ventura, se atrevesse a sugerir que ela mostrasse seus pelos pubianos, levaria uma porrada tao grande no meio dos chifres que certamente passaria a ver tudo preto por muito tempo. A solução era então dar um credito de confiança para a amada em potencial ate’ que naturalmente pudesse descobrir a verdade, o que, na realidade não importava, ja’ que, sempre mostrado `a ele, e ao publico, seriam seus maravilhosos cabelos loiros.
   Por sorte, ou por azar, ja' que sua busca infrutífera se estendia agora por alguns anos, foi parar logo em Blumenau que, alem de estar cheio de loiras, como dizem os habitantes locais; “aqui, ate’ mulher que vende cachorro quente na rua e’ bonita”.
   Ponha-se você na pele do nosso amigo e imagine como se sentia... Mulher loira, bonita e sozinha...
   Na rua, por vezes, se portava como um cachorro perdido atrás de linguiça. Passava uma loira, la' se ia o Amando atrás da mesma. Se outra cruzasse, em direção oposta, Amando virava imediatamente... Se o perfume da “candidata” o agradasse, ai então e' que se portava como bêbado depois de uma trombada no poste.
   Mas o cara não dava sorte... Talvez porque a maneira pela qual tentava iniciar o dialogo não era apropriada para a cultura local. Algumas da frases usadas para "quebrar o gelo", eram do tipo:
-  O “Maria”! Queres ir `a casa cozinhar, lavar minha roupa e depois dar uma trepadinha?
-  Se eu te der Cem tu das três?
-  Se prometeres lavar, passar, cozinhar e trepar, eu caso...
   O que não da' para entender e' como usando frases como estas ainda estava vivo. Talvez pela educação, amabilidade e costumes locais, tão bem conhecidos no pais...
   Ainda bem que não chegara a se apresentar a ninguém. Imagina pegar na mão de uma mulher e dizer: “Meu prazer, Amando Nabo Seta”.
   Um dia, conversando com um amigo na rua Sete de Setembro, perto do centro da cidade do Rio da Janeiro, não pode resistir ao ver uma linda loira passar e falou:
- Tu és mais gostosa do que ensopado de jilo' com maxixe e quiabo mas, mesmo sem
   estares no meu prato, te comia todinha...
   Ao ouvir aquilo, seu amigo não pode resistir...
-  Amando, tu ta' maluco? Como e' que você tem coragem de dizer isto a uma mulher?
-  Se não lhe digo, como vai a cachopa saber que gostaria de come-la?
-  Cara, não e' nada disso! Agora sei porque você ainda esta' so'.
   Provando ser um amigo fiel, Jacinto Fadigas se ofereceu a educar seu amigo e tentar ensina-lo a como iniciar um contato com uma mulher.
   O primeiro passo foi convida-lo `a sua casa para um jantar quando o apresentaria `a sua esposa, notória por seu bom gosto, sobriedade, educação, delicadeza.
   Não tardou muito para que ela soubesse por onde começar a corrigir seu novo conhecido.
   Assim que viu aquela mesa hiper sofisticada e o cheiro de especiarias que perfumava a sala de jantar, Amando falou:
-  Senhora Fadigas, ainda não provei nenhuma desta porrada de comida que a
   senhora esta' a preparar mas, tenho certeza, que estão gostosas pra caralho. Minhas
   ventas nunca falham. Quando sinto meu próprio chule', sei que e' hora de trocar de
   meia e, acredite-me, senhora Fadigas sua cozinha não cheira nada como chule'...
   Interessante! Pensando bem, não sentimos cheiro de meleca... Pois então
   como sabemos a hora de limpar o nariz. Esta porra deste pensamento agora vai estar
   a consumir meus miolos. Meleca não cheira, pois não?
   A esta altura, Dona Mirinha tinha certeza que Amando era uma batalha inglória mas, por insistência de seu marido que, apesar de gostar de seu amigo Lusitano, morria de vergonha de estar a seu lado, iria tentar resgatar aquela pobre alma dos abismos do inferno ou, pelo menos evitar que fosse assassinado por uma das insultadas por sua condescendente verborreia.
   O jantar, cheio de idiossincrasias foi, no minimo, incongruente. Se o Português abrisse a boca, podia esperar ouvir uma asneira ou algo absurdo e sem cabimento... Seus elogios soavam como insultos mas, por incrível que pareça, conseguia proferir insultos com carinho... O cara era completamente destrambelhado.

   Coçando  a cabeça, como quem esta resolvendo se usa logo ou sai fora da moita, Dona Mirinha, recalcitrantemente, resolveu dar uma opção aos santos de operar um milagre.
   Convidou Amando `a sua casa novamente onde o treinaria em como despertar atenção e interesse de quem a ele interessasse interessar, ao mesmo tempo interessando ao seu interesse romântico, por ele se interessar de maneira interessante. Não queria que ele tivesse apenas um contato sem interesse ou privado de maiores interesses mas sim, algo que interessasse concomitantemente aos interesses românticos que aqueles interessados no interesse comum e interessante se interessavam em interessar.
   Dentre os tópicos em treinamento, estava também, maneiras `a mesa, como se portar junto `a uma dama durante uma refeição, em casa ou em publico. Como aprochegar, como escolher as primeiras palavras, como procurar descobrir os interesses da interessada e assim por diante... Em outras palavras aprender a “vaselinar” suas pretendentes...
   Os jantares aos quais era convidado três vezes por semana eram a base do treinamento que Dona Mirinha infletia em seu amigo, impiedosamente.

   Um dia, muitos meses depois, Jacinto chegou em casa todo animado, perplexo, sem acreditar no que tinha visto; naquele dia chuvoso, ao escorregar, cair, e ser praticamente atropelado por uma senhora que devia pesar quase duzentos quilos, Armando levantou-se do chão, com sua ajuda e falou para a senhora que ainda o olhava com uma atitude provocante; “Desculpe minha senhora se quase a fiz cair, sei que não deveria ter tropicado”. Alguns meses atrás, sua reação seria mais como se levantar e dizer: “O’ sua filha da puta, tu és cega? Não vês que eu estou aqui todo fodido? Não tens lugar melhor para enfiar as patas?”
   Mirinha, ao ouvir o relato, ficou realmente orgulhosa de seu trabalho. Naquele mesmo dia, ao jantarem, prestava bastante atenção `a Amando. Fino, delicado, atencioso, moderado, falando em voz baixa, ao invés de vociferar a respeito de chule' e meleca, como havia acontecido no primeiro jantar. Aleluia! Milagres acontecem...
   Parecia ate' que ele havia desistido de mulher loira... E' claros que ainda as encarava quando por ele passavam mas, agora de maneira respeitosa e sóbria. Apenas um discreto sorriso deixava escapar.
   Então, o inesperado tomou lugar. Deixou de olhar para todo o tipo de mulher, indiscriminadamente e' claro. Agora, estava `a procura de uma relação de verdade, não apenas uma trepadinha na sexta-feira, depois do trabalho.
   O ser humano e' realmente contraditório... Quando estava com fome, não sabia comer, agora que sabia como, havia perdido o apetite.
   Resolveu então, contra tudo e contra todos, entrar em um “site” de namoro a procura de sua parceira.
   Quem, por ventura, lesse o perfil do novo candidato, seria incapaz de dizer que, ha' apenas alguns meses atrás, estava proferindo obscenidades em ouvidos fortuitos que por ele ocasionalmente cruzavam nas ruas da cidade.
   Armando não era de se jogar fora. Era simpático, agora educado, atencioso, tinha um bom emprego, morava bem... E’ bem verdade que era mais cabeludo do que um macaco e, se não tomasse dois banhos por dia, seu chulé era capaz de contaminar ate' o caminhão do lixo passando do outro lado da rua... Mas, nada que uma depilação, e dois banhos por dia, pudessem resolver.
   Sempre, ao chegar do trabalho, a primeira coisa que fazia era sentar em frente ao computador e ler sua correspondência.
   Tinha tanta mulher interessada no raparigo que era difícil saber como começar a selecionar. E’ claro que, quem não fosse loira, estaria automática e irreversivelmente eliminada de suas pretensões amorosas.
   Amando não estava com pressa, ainda era jovem, pensara... "Mesmo que demore cinco anos para encontrar a futura dona do meu coração, não tem problema. O importante e' que acerte na mosca. Que dizer, acerte na moça. Ou seja que a moça seja a certa para mim. Bem, não faço questão que seja jovem, pode ser coroa, ou viúva ou cocota... Pode ser ate' uma vagabunda, neste caso, que queira se corrigir, e' claro. So' quero que seja a pessoa `a mim destinada pelos poderes celestiais".
   Depois de breves conversas inconsequentes, algumas ate' por vídeo, finalmente, um dia recebeu uma mensagem de uma mulher que realmente tinha tudo para ser a eleita.
   Era muito bonita... Loira, e' claro! Olhos azuis, rosto perfeito, lábios sensuais, alta, corpo bem proporcionado, mãos delicadas... O único revés e' que tinha sessenta e um anos de idade mas, pelo menos foi honesta em confessar a verdade, apesar de interessada em um homem que tinha trinta e cinco, não mentiu.
   A principio, a idade da pretendente o preocupava um pouco mas, depois de alguns pensamentos cruzados e ate' alguns argumentos entre sua razão e seu coração, decidiu que era melhor ter uma de sessenta do que ficar sonhando com duas de trinta.
   Começaram então, depois de terem aceito um ao outro, um romance epistolar onde trocavam opiniões, certezas, esperanças, aspirações futuras e, ate' mesmo desejos carnais ou, como diria o nosso amigo alguns meses atrás, antes da transformação drástica em sua personalidade; “sacanagem braba”.
   Amando estava feliz, assim como, aparentemente estava Delícia di Soppa sua pretendente, descendente de Italianos que para o Brasil imigraram no tempo da Guerra. Embora tenha sido criada Santa Catarina, atualmente vivia em Rondônia, sabe-se la' por que cargas d’agua.
   Para tornar tudo mais conveniente e providencial, Amando era uma ótima desculpa para voltar `a sua cidade natal apos tantos anos de ausência. Depois que se conheceram, começou realmente a sentir muitas saudades de suas raízes.
   Uma tarde, conversando com seu amigo Fadigas, confessou que estava vivendo uma das melhores fazes de sua vida e, esperava com ansiedade a hora de encontrar e conhecer pessoalmente `a Delicia, musa e-pistolar, responsável por toda aquela emoção romântica. Para ele, Delicia havia transformado seus dias solitários em uma constante dilação eufórica por um evento pessoal permanente.
   Fadigas também estava feliz por seu amigo, não so' porque finalmente teria a seu lado a companheira que tanto buscara como também deveria, depois da poeira assentada, parar um pouco de encher o saco.

   Ja’ haviam se passado cinco meses desde que conheceu sua Delicia. Ja' era tempo de começar a providenciar o encontro pessoal, teste final que, tinha certeza, confirmaria suas esperanças de que aquele “romance” fosse algo verdadeiro e duradouro.
   Antecipando os acontecimentos, sua “amada” pedira a ele que fizesse uma visita `a seus pais. Uma vez que moravam na mesma cidade.
   Naquele mesmo dia, em conversa telefônica, depois de um breve relato do que tinha acontecido, Amando marcou uma visita para o final de semana.
   Naquele Domingo, como combinado, la' estava nosso herói lusitano, dando o primeiro passo para a consolidação daquele namoro.
   O primeiro a recebe-lo foi o Sr. Collier di Soppa, um senhor que aparentava mais de oitenta anos, pai de Delicia. Assim que chegou `a sala de jantar, encontrou mais duas senhoras, uma aparentemente da mesma idade daquele senhor que o recebera, D. Appanella di Soppa que se apresentou como mãe de Delicia e uma outra bem mais nova, talvez beirando cinquenta anos, Bellamina di Soppa que disse ser irmã de sua namorada.
   Conversaram por algumas horas se racontando historias familiares, pessoais, alegres e pungentes... Como viviam em seu pais de origem, como decidiram escolher ao Brasil para sua segunda pátria, como aqui chegaram, as dificuldades enfrentadas... Amando também confessou historias sobre Portugal, sobre seus pais ja' falecidos, sobre as saudades que ate' hoje, tanto tempo depois do acontecimento, ainda sentia...
   A visita, que pretendia fosse curta e cordial, se estendeu ao almoço, depois para um cafezinho e so' se mancou quando viu D, Appanella sonolenta dando cabeçadas no encosto da cadeira onde estava sentada.
   Aquela havia sido uma agradável surpresa para Amando. Sabia que deveria ser gentil e educado com a família de sua noiva mas, nunca pensara que iria gostar tanto daqueles estranhos que acabara de conhecer.

   Finalmente, uma semana depois, receberia sua namorada no aeroporto dos Navegantes, cidade de Itajaí, menos de uma hora de distancia de Blumenau.
   Amando estava realmente nervoso. foram quase seis meses de vídeo conversas,
emails, telefonemas, muita alegria, felicidade... Como havia dito varias vezes `a sua namorada, mal podia esperar a hora de conhece-la pessoalmente para juntos poderem dar inicio `a “festa permanente” em que aquele relacionamento se tornaria.
   Estava se preparando como um menino se prepara para a primeira comunhão. Cortou os cabelos, comprou algumas pecas novas de roupa, deu uma ajeitada em sua casa, para torna-la mais condizente com padrões femininos... Havia ate', apos  ponderações intrínsecas, resolvido aparar um pouco os cabelos do sovaco e do pir... que dizer, do pe', sem o que seria difícil encontrar algumas partes, camufladas por aquele matagal de cabelos que cobria seu corpo.

   Eram três horas da tarde da terça-feira seguinte quando saia de casa em direção ao aeroporto. Em cinquenta minutos ja' estava na porta de desembarque, onde encontraria a namorada que chegaria `as cinco da tarde.
   Dez minutos antes do previsto, a porta se abria e os passageiros daquele voo começaram a sair. Não tardou para que reconhecesse entre eles aquela por quem esperava. Amando estava surpreso, Delicia não era nada daquilo que tinha visto anteriormente em vídeos e fotografias. Era muito mais bonita! Nunca, ninguém diria que aquela mulher tinha mais de sessenta anos de idade. Seu rosto impecavelmente maquiado, seus cabelos loiros brilhavam aos raios de sol que os tocavam, os lábios muito vermelhos, olhos azuis claros, desfilando um vestido preto que realçava todas as suas formas e davam azas `a imaginação. Enfim, uma mulher difícil de ser ignorada.
   Assim que ela também o reconheceu, foi a seu encontro e trocaram caricias amorosas. Todos ao redor não conseguiam tirar os olhos daquele par. Amando, por sua vez, mais parecia um galã da novela das oito do que um mal educado que alguns meses atrás oferecia dinheiro para tentar dar uma trepadinha.
   Mais alguns minutos de admiração por ambas as partes e saiam de mãos dadas em direção ao estacionamento.
   No caminho para Blumenau, Amando informava havia combinado ir diretamente `a casa de seus pais que ofereceram preparar um jantar em homenagem aos dois.
-  Ir direto para casa de minha família? Eles são tão chatos... Disse Delicia.
   Armando, desviando o rosto, olhava para sua companheira surpreso com aquelas palavras.
-  Você não gosta de seus pais? Perguntou.
-  Gosto ne'! São meus pais, tenho que gostar mas, meu pai e' surdo, tenho que falar as coisas mais
   de  dez vezes ate' ele entender. Minha mãe e' coxa, anda mancando, minha irmã e’ uma idiota que
   nunca saiu da cidade onde nasceu...
   Ao ouvir aquelas palavras, os olhos de Amando se encheram de lagrimas, ao
lembrar que D. Appanella contara que, quando fugiam da Itália, ao tentarem atravessar
escondidos uma barreira fascista, a menina, que mal sabia andar, teve sua perna
presa em uma cerca de arame farpado, ao tentar resgata-la, o barulho chamou
atenção dos soldados que patrulhavam a fronteira e começaram a atirar.
D. Appanella se jogou em cima de sua filha e teve uma das pernas atingida por uma rajada de metralhadora. Assim mesmo, andou dois dias, com a filha no colo, ate' chegar `a Stabio, cidade Suissa próxima `a fronteira Italiana. So' então pode ser atendida em um hospital de emergência.
-  As lagrimas são de alegria ou emoção? Perguntou Delicia, ao perceber o semblante
   de seu namorado que apenas balançou a cabeça em resposta.
   A viagem, a partir dali foi tensa e constrangedora...
   Ao chegarem `a casa de seus pais, que receberam os dois com muita felicidade e alegria, Delicia estava fria e mal conversava com os pais. Amando, tentando impedi-los de perceber a desconsideração da filha, fazia questão de lhes dispensar total atenção e cuidados especiais.
   Horas depois, sentados `a varanda da casa, Delicia tentava esclarecer os motivos da mudança de comportamento de seu namorado.
-  Você viu como tratas a teus pais? Se tu és assim com eles, como seras comigo
   depois que estivermos juntos?
-  Meu pai e' velho! Não sei como você tem paciência com eles... Alem do mais, vim
   aqui para ficar com você, não com eles... Respondeu Delicia.
-  Pois então tu podes voltar. Toda tua beleza não serve para nada se tratas aos outros
   desta maneira. Teu pai e' um herói que não exitou em viver em um pais estranho
   para que tu e tua irmã tivessem uma vida melhor. Tua mãe manca porque salvou tua
   vida e tua irmã e' uma pessoa feliz, tem a vida que escolheu e se dedica muito a teus
   pais. Você e' uma pessoa fútil... So' agora entendo coisas que ouvi dizeres e que, no
   momento, a mim não fizerem sentido.
-  Desejo a ti toda a felicidade do mundo mas, por favor, não mais me procures...
   Assim que terminou seu discurso, voltou `a casa e se despediu da família e da ex namorada.

   Semanas passaram ate' que um dia, por coincidência, se encontrou com Bellamina. Imediatamente a convidou para jantar, estava com saudades de todos, queria saber como estavam...
   Conversaram a noite toda sem mencionar uma vez o nome de Delicia.
   Ao final da noite, Amando, muito gentilmente se ofereceu a acompanhar sua ex-quase-cunhada ate' sua casa. Se seus pais ainda estivessem acordados, aproveitaria para matar as saudades.
-  Você tem falado com minha irma? Perguntou Bellamina.
-  Não! Nunca mais tivemos contato. Sabe? A melhor coisa para mim foi esperar pela
   chegada de tua irma. Tinha tantos planos para nos... Assim que a encontrei e
   começamos a conversar, todas minhas ideias despencaram como um castelo varrido
   pelas águas do mar. Depois que presenciei a maneira com que ela falou com você e
   com teus pais, de repente, ela se tornou para mim uma pessoa feia, insuportável.
-  Minha irmã não tem jeito. Foi um alivio para nos quando ela resolveu sair de casa. Meus pais
   estavam sempre tristes enquanto ela aqui vivia. Disse Bellamina.
   Não tardou para que chegassem `a casa da Soppa. Assim que entraram, constataram que Seu Collier e D. Appanella ja’ estavam dormindo.
   Sentados no mesmo banco, na varanda da casa, Amando e Bellamina ainda conversaram por horas... So' agora reparava melhor naquela mulher que, embora não fosse tão bonita e bem tratada como a irmã, era loira, olhos azuis, alta, elegante, solteira, muito gostosa, alem de educada, gentil, respeitadora e, principalmente, uma boa e dedicada filha.
   Ao se despedirem, ela o convidou para o almoço de Domingo.
   Antes de chegar ao carro, estacionado em frente `a casa, ainda deu uma olhada para Bellamina que acenou para ele exibindo um sorriso feliz.

   Assim que colocou o carro em movimento lembrou do tempo de menino, em uma semana que antecedia o Natal daquele ano, quando disse que mal conseguia esperar os dias que faltavam para abrir os presentes que havia pedido a Papai Noel. Sua avo' uma senhora baixinha que, toda vez que ria, sua barriga balançava, olhou bem para ele e falou; “meu filho, nunca se esqueça que a espera e' o melhor da festa.”







Copyright 10/2019 Eugene Colin

sexta-feira, 24 de abril de 2020

ANTIQUES









                                                            Antiques








   Adélia trabalhava em uma loja de antiguidades no Rio de Janeiro, em um casarão antigo, escondido em uma rua do Baixo Leblon, que havia sido recém inaugurada. Era uma experiência nova... Seus donos foram donos do mesmo tipo de negocio quando moravam nos Estados Unidos e a grande maioria das roupas expostas vinham de la’.
   Mas “Que Barato!” Nome do estabelecimento, não vendia apenas roupas... Ali tinha de tudo. Adelmis Jão, dono da loja, pregava a teoria de que “o lixo de um e’ o tesouro do outro”... Não queria nem saber, via o que para muitos seria considerado uma porcaria na rua, pega e botava pra vender. `As vezes saía de carro, andando pelas ruas da cidade “catando lixo”. Um dia, dirigindo por uma viela da Lapa, viu uma casa antiga sendo demolida... Prato feito! pegou tudo, que sua mente de comerciante achava poder ser vendido, e botou no carro.
   Ao chegar a loja deu uma limpadinha de leve, não podia estar muito limpo, para manter a qualificação de “antiques”. O cara de pau chegou ao cumulo de colocar `a venda um tijolo, quebrado nas pontas, por $ 1.500,00. E bem verdade que em um dos lados do tijolo estava escrito 1911 mas, mil e quinhentos reais?...
   A loja era interessante, principalmente para quem não tem nada que fazer e esta’ cansado de jogar cartas nas mesinhas das praças do bairro...
   Logo `a entrada estava um balcão onde trabalhavam as funcionas Adélia e sua amiga, Adelina.
   Ao lado direito do balcão, um corredor com cabines em ambos os lados, todas cheias de tralha ou, “antiques”, como preferiam dizer as vendedoras. Este corredor seguia ate’ o fim da loja, onde desembocava em um outro corredor e mais outro... Goste ou não, era interessante ver como era possível ter tanta porcaria em um so' lugar...
   Mas Adelmis Jão achava que seu negocio daria certo, era so’ uma questão de tempo para que os clientes se acostumassem `a ideia de serem explorados.
   No dia anterior `a inauguração da loja, Adélia e Adelina passaram a noite toda fazendo sacanagem na cozinha da loja... Era um tal de me da aqui, espreme mais, enfia no buraquinho, deixa que eu seguro... Quem ouvisse a conversa das duas jamais iria imaginar que estavam preparando espetinho para a festa do dia seguinte.
   Pela manhã, chega o dono da loja com cafe', suco, pão de queijo, bolo, biscoitinhos... `As dez horas as portas se abriram e... Ninguém do lado de fora. Fizeram aquilo tudo para nada. E olha que tinha um monte de faixas nos postes, em algumas ate’  se lia: "GRAND OPENING”.
   Mas Adelmis não era de se desanimar facilmente... Contactou uma amigo que tinha uma gráfica e mandou imprimir cartazes com dizeres variados para serem postados pelas ruas perto da loja... Pensou ate’ em anunciar nos ônibus que trafegavam nas imediações da loja.
   Em poucos dias, cartazes dizendo: “Você pensa que e’ velho? No “Que barato!” você vai ver o que e’ velho.”  ou “Que barato! A loja de velho...” ou  “Que barato e’ a única loja onde nada e’ velho, so’ "antiques”. Coisas assim...
   Mas, apesar da fortuna que ate’ agora havia gasto, nada... Ninguém mais queria coisa velha. Quer dizer, “antiques”.
   As vendedoras estavam desesperadas, não tinham o que fazer... A opção era ficar em pe’ o dia inteiro e, em poucos meses se candidatarem `a varizes ou, ficarem  sentadas o dia inteiro e criar calos na bunda.
   Demorou algumas semanas para o primeiro cliente aparecer, assim mesmo, deu uma voltinha, olhou para aquele monte de inutilidades e foi embora dizendo para uma das vendedoras:
-  Amanhã vou trazer um monte de tijolo que tenho em casa e vou te vender por dois merréis cada.
   Mas as vendedoras eram educadas e, jamais pensariam responder: “Enfia teu tijolo no ...”
   No segundo mês, aos poucos, uns gatos pingados começaram a aparecer... Um dia, chega um homem que ficou rondando a loja por mais de uma hora. Aquilo não era comum. Ao reparar que o homem não saia nem dizia nada, so’ rondava os corredores com os bracos cruzados atrás das costas, Adelina foi a seu encontro e delicadamente perguntou:
-  O Senhor precisa de ajuda?
-  Não! Estou bem, Obrigado! Respondeu o homem.
   O cara ja’ havia passado pela recepção umas cinco vezes quando Adélia, a outra vendedora, resolveu entrar em ação...
-  O Senhor quer ajuda? Perguntou.
-  Não me chame de Senhor, sou bem mais novo das tralhas que vocês tem aqui. Nem pense também
   que sou um “antiques”... Respondeu o homem.
   Muito interessante a coleção desta loja. Um dos item que me chamou atenção foi um tijolo de
   1911, muito raro... Também gostei daquela Vitrola com móvel para discos e tudo. Também achei
   interessante a a quantidade dos discos de 78 RPM e ate’ alguns Long Playings que possuí no
   passado. Foi muito bom saber que esta loja existe e que guarda tantos itens valiosos para a
   preservação de nossa cultura. Hoje em dia todos so’ querem saber de “novelties”, esquecendo a
   historia das coisas que os conduziram ate’ hoje...
   Adélia ate’ abriu um sorriso em resposta ao elogio...
   O tal senhor cruzou as mãos atrás das costas novamente e, olhando de um lado para o outro saiu sem dizer mais nada. A vendedora olhou para um lado, depois para o outro e, intrigada, voltou ao balcão da entrada, so’ pra criar mais algumas varizes...
   O dia terminou como havia começado... Ninguém na loja, nada pra fazer, a não ser tirara a poeira das antiguidades.
   Aparentemente, nem cartazes, propaganda em ônibus, folhetos nos postes, nada dava certo.
   Ninguém no Leblon se interessava por tijolos antigos vendidos a preço de prataria nova.
   No dia seguinte, assim que a loja abriu, volta aquele mesmo senhor... O mesmo ritual. Mãos atrás das costas olhando para os lados...
-  O senhor precisa de ajuda? Indagou Adélia, mais uma vez...
   Como não tinha nada o que fazer, ela acompanhava o homem, conversando, trocando ideia a respeito dos “antiques”, tecendo comentários que ambos compartilhavam, enfim, descobrindo que, pelo menos, havia encontrado alguem para preencher algumas horas de seu dia vazio.
   Adelmis, duas ou três vezes por semana, passava pela loja, conversava com as vendedoras e dali saia satisfeito da vida, como se estivesse vendendo horrores...
   As funcionarias não entendiam nada... O cara estava com uma despesa do cacete, perdendo um caminhão de dinheiro mas, não estava nem ai.
   Kleine Aber Löst, nome daquele senhor, visitante assíduo era, na opinião de Adélia, o único alivio para seus dias maçantes. Ele passou a visitar a loja todos os dias e, conversa vai, conversa vem, confissões daqui, revelações dali, come um pão de queijo! Aceita um cafe’? Os dois começaram um namoro. Agora, Kleine vinha todos os dias `as oito da noite, hora em que a loja fechava, acompanhar sua namorada ate’ em casa.
   Depois de algumas semanas de convivência, ele resolveu levar ate’ ao Que Barato! alguns amigos da Alemanha que vieram visita-lo.
   As vendedoras mal puderam acreditar no que venderam aquele dia. Os caras compraram um monte de “antiques”...
   Ao saber do ocorrido Adelmis Jão, dono do estabelecimento, resolveu investir em propaganda nos países da Europa. Com o tempo, ate’ conseguiu que empresas de turismo resolvessem incluir nos roteiros vendidos, meio dia de visita `a loja, cheia de “lembrancas do Brasil”. De repente, o negocio deslanchou. A medida que moradores e transeuntes viam a loja repleta de estrangeiros, resolveram dar uma espiada, so’ por via das duvidas, alguns ate’ gostaram e, começara a frequentar regularmente e, e’ claro, no meio daquele monte de porcaria, que dizer “antiques”, sempre achavam algo que os fizessem lembrar de algo importante em seu passado.
   Adélia, esperta pra cacete, convenceu o dono da loja que, não so’ precisavam de ajuda, como também, era de opinião, que precisavam de um homem. Isso iria dar a elas uma impressão maior de segurança. Adivinha que foi o escolhido? Exato!
   Quando Kleine recebeu o convite de sua namorada, aceitou imediatamente, dizendo que gostava de coisas antigas... Adélia, feliz como uma colegial apaixonada respondeu:
-  Que legal! Se você gosta de coisas antigas vai ser bom porque vai gostar de ter uma  
   namorada idosa e não vai ficar correndo atrás das mocinhas.
   Finalmente, gracas `a persistência de Adelmis Jao, seu negocio deslanchou. Adélia e Kleine decidiram morar juntos e, estavam felizes para sempre.
  
   Ah! O tijolo de 1911 foi finalmente vendido para um turista Austríaco por $ 1450 reais. Resolveram dar um desconto, so’ porque o cara era muito simpático e comprou mais um monte de trala velha. Que dizer, “antiques”.






Copyright 4/2020 Eugenio Colin

sexta-feira, 17 de abril de 2020

XMAS IN MAY









                                              XMAS IN MAY





                         A day of Christmas... There was no snow,

                         no christmas carols or signs to show,
                         the coming season to help us live,
                         to share, to dream, and also give...
       
                         I went online, like always do,
                         looking for signs of love, of you.
                         And when I read your letter to me:
                         "Me in a box", as you can see...

                         I took the "box" right to my room,
                         like a young boy or, like a groom
                         that always waited, hoping receive
                         the best present someone could give...

                         I look at it, preciously wrapped
                         with golden laces and purple packed.
                         I sat the "box" into my bed
                         to open slowly, just like you said...

                        And, when I took the lid away,
                        I found you there, this time to stay.
                        I held your hand, I touched your face,
                        I helped you out with my embrace...

                        And once you're out, with majesty,
                        I could foresee, our life to be.
                        I saw your smile, I heard your voice,
                        I saw our future, our brighter choice...

                        Now that my dream has all came true,
                        I'll just spend my life with you,
                        making each moment a season day,
                        having my christmas, this year, in May...




Copyright 5/2020 Eugene Colin.




quinta-feira, 9 de abril de 2020

MOTOCICLETA







                                                       Motocicleta









   Rolando Caio da Rocha, mais conhecido por seus amigos como “Machucado”, não se sabe porque, se sentia o jovem mais feliz do mundo naqueles dias. Havia realizado o grande sonho de sua vida desde que “aposentou” sua Gulivette, companheira fiel que o levara varias vezes, quando ainda era quase um menino, `as praias da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. E’ bem verdade que na subida tinha que pedalar pra cacete mas, ele não ligava. O importante e’ que conseguia ir `a praia, se divertir com seus colegas e ficar bronzeado para tentar impressionar, e muitas vezes conseguindo, as meninas com as quais iria dançar nos bailes de Sábado `a noite, no clube social que frequentava semanalmente.
   Machucado havia conseguido, depois de muita economia, comprar sua Yamaha Dragstar 1100. A moto era uma jóia, para quem gosta... Embora fabricada cinco anos atrás estava novinha, com pintura original, sem um arranhão. Brilhava mais do que os dentes do “Boca de Ouro”... O sonho de consumo de Machucado e de muitos de seus amigos. Tinha ate’ aqueles fiapinhos de couro nas manoplas, característicos das motos americanas pristinamente equipadas.
   O para brisa era de acrílico translúcido, faróis de milha, mata-cachorro e tudo mais que uma moto de categoria internacional tinha direito.
   Ja’ por algum tempo nosso amigo sonhava com os passeios que seriam possíveis com sua nova moto, as cidades vizinhas da sua, no Sul de Minas Gerais, estado que resolveu tomar emprestado como seu, para fugir `a violência das megalópoles onde viveu grande parte de sua vida.
   E’ claro que a infância livre, feliz e despreocupada de seus dias de menino no Rio de Janeiro havia ficado para trás há muito tempo. assim sendo, otimista como era, ao invés de sentar em casa em frente `a televisão, abrir a caixa de sapatos cheia de fotos do passado e se lamentar por uma realidade fora do alcance de seu controle, resolveu procurar outra cidade para viver, com mais liberdade, maior segurança, menos problemas.
   Não teria mais a Barra da Tijuca, nem os bailes de sábado `a noite...
   Em compensação, as estradas sinuosas e cheias de curvas sombreadas por arvores, cujas folhagens, embaladas bela brisa fresca e suave, que fazem parte da região, exalavam um perfume magnifico jamais sentido em suas milhares de viagens de adolescente em seu rumo `a praia.
   Quanto a Sábado `a noite, O máximo que poderia conseguir em uma cidade do interior era um forro’ na praça principal da cidade, animado por musicas sertanejas. Mas, ate’ isso ja’ estava fazendo parte de sua nova realidade e, depois de alguns meses vivendo na local que escolhera, ja’ estava se acostumando aos seus novos sons.
   Os anos haviam, inexoravelmente, substituído Tom Jobim por Michel Telo’, Toquinho e Vinícius de Morais por Fernando e Sorocaba, Ivan Lins por Luan Santana, Gál Costa por Paula Fernandes, Emílio Santiago por Guilherme e Santiago, e assim por diante... Talvez fosse melhor para Machucado esquecer suas preferências musicais  e se concentrar mais em sua nova moto.
   Porem, apesar de todo o excitamento e sensação de sonho realizado, havia uma coisa que o incomodava muito mas, com a qual teria que conviver, pelo menos por algum tempo, devido `a sua total incapacidade financeira em resolver o problema. A moto estava com o escapamento totalmente aberto, consequentemente muito barulhenta, fato que o entristecia profusamente mas que teria de ser compensado em sua mente pela alegria que em geral o dominava.
   Seu primeiro desejo, naquela manha de Sábado, era o de levar Aurélia Pulquéria, suanamorada, para uma volta pelas estradas bucólicas da região.
   Ao chegar `a casa da namorada, assim que ela o viu usando um casaco de couro, segurando um capacete que ostentava a mesma cor da moto, começou a pular de alegria... Sabe la’ o que e’ isso! Namorar um jovem da cidade grande, bonito pra caralho e ainda mais dono de moto... Isso era o sonho de adolescente de qualquer menina daquelas bandas... A garota pulava mais do que carro em estrada de chão esburacada do interior. Os gritos eram tantos que sua sua mãe chegou `a porta para se certificar que sua filha estava bem... A coroa ate’ deu uma olhadinha na linda moto... Provavelmente  havia pensado: “Se um garoto bonito como esse me poe numa garupa de moto, vou dar tanto pra ele que ele não vai conseguir nem fazer xixi no minimo por duas semanas.”
   A sorte do Machucado e’ que ninguém consegue ler pensamentos... Assim sendo, pegou sua querida Pulquéria pela mão que, diga-se de passagem, era bonita pra cacete e tinha um par de coxas de fazer muita popozuda morrer de inveja, alem dos peitos que mal cabiam dentro do sutiã... O cara tava com sorte. Tinha a moto de seus sonhos e uma lindas namorada pra andar com ele.
   Saíram felizes pelas ruas da cidade ate’ alcançarem a estrada que os levaria `a cidade vizinha.
   A paisagem era maravilhosa, o sol sombreando a estrada com reflexos de folhas, cerejeiras, hortênsias, acácias caídas no chão ainda emprestavam seu perfume aos que suas lindas flores caídas feriam...
   Aurélia esmagava seus peitos contra as costas de seu namorado ao mesmo tempo em que ele passava a mão na coxa da garota que ja’ estava ate’ babando, no local adequado, e’ claro!
   Em dado momento, em meio aquele momento magico, Aurélia diz para o seu namorado:
-  Essa tua motocicleta faz um barulho filho da puta.
-  O que? Perguntou Machucado.
-  Essa tua motocicleta faz um barulho filho da puta. Repetiu ela.
 - O que? Disse novamente o rapaz.
-  Essa tua motocicleta faz um barulho filho da puta. Falou ela, mais alto desta vez.
-  Como e’ que e’? Respondeu ele, quase gritando.
-  Essa tua motocicleta faz um barulho filho da puta. Disse Aurélia novamente, desta  
   vez gritando `a todos pulmões.
   A esta altura, tentando entender o que sua namorada queria dizer virou a cabeça para trás e disse, gritando:
-  Porra! Fala mais alto que essa minha motocicleta faz um barulho filho da puta..



Copyright 4/2020 Eugenio Colin

sexta-feira, 3 de abril de 2020

CARINHO










                                         Carinho








                 Menina querida, a quem não conheço,
                 mas tenta me dar o que não mereço,
                 a pele morena, a beleza singela
                 o sonho de amor que dela se espera,
                 o som de uma fala tão linda, tão calma
                 que imagino, e mexe, com fundo da alma,
                 a bondade de quem tanto fala de amor,
                 que nunca merece sentir uma dor...
                 que mantem a esperança de noite, de dia,
                 que de um homem comum, realeza faria...
                 Aquela que sabe tão bem o que quer
                 que o sabe ensinar a quem não souber.
                 que tem o perdão como meta imporatante
                 mantendo o ódio de si tão distante...
                 Os olhos que sempre sorrino estão
                 completando a beleza se nem um senão...
                 Voce viajou, andou pelo mundo
                 e, mesmo assim, nem por um segundo,
                 perdeu as raizes que um dia criaram
                 a mulher que os passos as ruas cruzaram...
                 Eu olho pra ti, sonhando acordado
                 não acreditando no que esta’ combinado,
                 que vou pra te ver, poder te encontrar,
                 uma vida a dois, quem sabe, sonhar...
                 Se então, acontecer o que tanto espero,
                 se tudo sair tambem como eu quero,
                 nem sei como vou la’ dentro sentir...
                 Vontade de um dia contigo fugir
                 para terras distantes que tão bem conheço,
                 pra juntos tentar um novo começo...
                 Poder encontrar o que procuramos
                 num ninho de amor que `a parte sonhamos
                 sem sequer saber que ao lado, um dia,
                 este sonho antigo aconteceria...
                 E então, quem sabe, sem mesmo querer
                 ao teu lado, na cama, ao amanhecer,
                 ao pe’ do ouvido falar bem baixinho:

                 Muito! Muito obrigado por todo carinho...








Copyright 10/2019 Eugene Colin