segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
SMORGASBORD
Smörgåsbord
Agenor Guardanapo havia decidido mudar de vida no ano novo...
A idade estava chegando e ele temia que, se continuasse com o tipo de vida que levava, teria sérios problemas no dia do juízo final...
O cara era uma desgraça... Bebia, fumava, namorava todo mundo... Não queria saber se ela era velha ou nova, feia ou bonita, gorda ou magra. O coração batia, ele comia! Adorava orgias e tudo mais que fosse contrario aos ensinamentos de Deus.
Todo dinheiro que ganhava, gastava em bebida, mulheres, cigarro, gorjeta para dançarinas... Coisas assim.
Aos quase sessenta anos de idade, não tinha nada em sua vida de que pudesse se orgulhar. Havia feito besteira a vida inteira mas, agora era diferente. Estava decidido...
Não sabia se estava cansado da vida que vivia ou arrependido do modo que sempre viveu. Apesar de seu estilo de vida, frequentava a igreja e era uma pessoa boa, de princípios. Praticava suas incoerências mas nunca prejudicou ninguém ou permitiu que outrem pagasse pelas consequências de seus atos.
Acontece que o homem era pior do que São Tome’, tinha que ver para crer. Ver duas vezes antes de crer uma so’.
Naquele Domingo, depois da missa, foi ate’ a sacristia, conversar com o padre.
- Dom Cascudo, bom dia! Posso falar com o senhor, um minuto?
- Claro meu filho! Respondeu o sacerdote.
- E’ o seguinte seu padre: Tô querendo mudar de vida, ser um melhor cristão para que,
quando morrer poder ir para o céu. O problema e’ que não sei como e’ la’... Gostaria
de dar uma chegada no céu e no inferno, so’ para ver a diferença e, depois de ver como e’, ter mais
um incentivo para mudar de vida.
- Nunca ouvi falar disso mas, tudo bem! Vou ver o que posso fazer. Respondeu o
padre. Porque você não acredita? Não e’ mais fácil? Finalizou.
- Pode ser para o senhor mas, pra mim, so’ vendo... Aquela historia do Tome’, lembra?
Normalmente, “Vou ver o que posso fazer...” pode ser “traduzido” como “Nao enche meu saco!” Mas, mesmo sem saber porque, ele achava que arrumaria um modo de alcançar sua meta.
Agenor continuava sua vida, agora dando uma trégua a seu “modus vivendi”. Pelo menos ate’ se certificar que as diferenças entre la’ em cima e la’ em baixo valiam a pena...
Dois domingos depois voltou a falar com Padre Cascudo...
- E ai seu padre? Conseguiu alguma coisa?
- Meu filho, pensei que você estivesse de brincadeira...
- Seu padre! E’ serio! Trata-se da minha salvação eterna... O senhor tem que me ajudar.
- Meu filho, me da’ mais uma semana. Vou resolver isto. Com certeza!
Duas semanas depois, em uma missa, Dom Cascudo chamou aquele fiel e pediu para que, depois da missa, fosse falar com ele.
Agenor não parou de tremer a missa toda. Estava tao nervoso que, mesmo sem saber, rezou dois terços, pratica que havia adquirido algumas semanas antes, com a finalidade de limpar um pouco sua barra. Não que tivesse a intenção de rezar mais do que deveria mas, com aquele nervosismo, sua mão tremia tanto que pulava uma conta para frente e duas para trás.
No final da missa, la’ foi ele em direção `a sacristia... Ao olhar para o padre, ainda tremendo de nervoso falou:
- Seu Padre, e’ melhor deixar pra la’. Não sei se quero saber sobre coisas que não devia...
- Agora e’ tarde meu filho... Ja’ ta’ tudo combinado. Assim que eu fechar a igreja você vai ter sua
resposta. Disse Dom Cascudo.
Enquanto o padre fechava a igreja, Agenor tremia tanto, apoiado a uma mesinha da sacristia, na qual tentava se segurar, que os santinhos sobre ela começaram a cair, um por um, espatifando-se ao chão. Cabra esperto, sorrateiramente, levantava a toalha que forrava a mesinha e com a ponta dos pés empurrava os cacos quebrados para embaixo da mesa... Ate' chegou a pensar se isso seria considerado pecado... Mais um!
O padre voltou e, enquanto tentava acalmar sua “ovelha negra”, uma luz mais clara do que a do sol invadiu a igreja e procurou seu caminho ate’ onde estavam.
Assim que toda aquela claridade penetrou o interior completamente, um anjo apareceu dizendo:
- Venha meu filho, vamos fazer um “tour” pela vida eterna...
Agenor nem conseguia falar...
O anjo pegou o homem pela mão e saíram atravessando parede, porta, muro... Apos subir um pouco no espaço, tomaram velocidade e desceram como um foguete, passando pelo chão, entrando na terra e viajando alguns minutos por uma escuridão assustadora.
Pararam por alguns segundos e, de repente, uma claridade começou a revelar uma enorme mesa, repleta de comida, um Smörgåsbord, melhor dizendo. Todas as iguarias do mundo sobre uma mesa que se perdia de vista, com cadeiras de ambos os lados e, as pessoas sentadas em frente a tudo aquilo magras, com o semblante de desespero, famintos, sem saber o que fazer ja’ que a distancia entre as cadeiras e o centro da mesa era muito grande e, as colheres `a sua frente, atadas `as mãos, com mais de um metro de comprimento, eram suficientes para alcançar as travessas de comida mas, por serem muitos grandes, não permitiam que conseguissem levar qualquer alimento `a boca.
O anjo olhou para Agenor e disse:
- Ja’ viu como e’ o inferno?
Ao reparar o aceno afirmativo que o homem fez com a cabeça, o anjo falou:
- Vamos ao céu!
Depois de minutos rompendo a escuridão, ainda de mãos dadas, saíram sobre as ruas velozmente e voavam em direção ao firmamento...
Chegando muito acima das nuvens, pararam sobre uma imensidade toda azul claro...
Novamente, apos alguns segundos, outra imagem se revelava. A mesma cena... Uma mesa enorme exatamente igual `a que haviam visto no inferno. As mesmas cadeiras, as mesmas colheres, as mesmas comidas, tudo exatamente igual. Mas as pessoas sentadas `a mesa estavam alegres, bem nutridas, coradas, felizes...
Agenor não entendeu nada mas ficou curioso...
O anjo olhou para Agenor e disse:
- Ja’ viu como e’ o céu?
Depois de notar o aceno afirmativo com a cabeça, o anjo pegou o homem pela mão e voltaram para a sacristia da Igreja.
Em la’ chegando, Dom Cascudo ainda aguardava por eles.
Ao colocarem os pés no chão, Agenor reuniu todas suas forcas e, vencendo o pavor, perguntou ao anjo:
- Não entendi nada! Pelo que vi não ha’ diferença entre o céu e o inferno. Com colheres daquele
tamanho, ninguém consegue se alimentar. Mas porque as pessoas no céu estão tao felizes e as do
inferno tao sofridas?
O anjo olhou para ele e, com um sorriso sutil explicou:
- E’ porque no céu, uns alimentam aos outros.
Nossa vida pode ser muito fácil ou muito complicada. A opção e’ nossa!...
Copyright 2013 Eugenio Colin
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
O PLANO NATALINO
O Plano Natalino
`Aquela noite, um homem, andando pelas ruas de Boston, viu a sua frente uma mulher loira, alta, muito elegante, de salto alto, que despertou sua curiosidade...
Apressou o passo e olhando para ela, andando a seu lado falou:
- Can I ask you something?"
A mulher olhou pare ele, de relance, não deu importância, e seguiu seu caminho. Ele deixou, propositadamente, que ela andasse um pouco `a frente.
Depois de olhar para seu rosto, sentia uma compulsão em falar com ela.
Decididamente, era a mulher mais linda que jamais havia visto.
Apressou um pouco o passo para que `a ela pudesse chegar novamente mas, o olhar serio que viu estampado em seu rosto o fez deixa-la seguir, mais uma vez. Quando ela ja' quase havia sumido de sua vista apressou-se, agora com determinação, tentando resgata-la. Não podia deixa-la passar. Tinha que falar com ela. Tentou finalmente.
- I just want to ask you something! May I?
Ela apressou o passo, andando rápida e impecavelmente naqueles saltos altos que a faziam tao elegante.
"- Puxa vida! Acho que não tem jeito..." Pensou o homem consigo mesmo quando, pode perceber
um sorriso no rosto da mulher.
De repente, lembrando-se que muitos Brasileiros vivem em Boston, arriscou:
- Você e' Brasileira?
- Sim! Foi a única resposta que ouviu.
Tentou puxar conversa, andando ao seu lado mas, ela mudava de direção, propositadamente colocando outra pessoa, que pela rua também andava, ente os dois. Depois de varias tentativas infrutíferas, a mulher pegou um ônibus e se foi. Não sem deixar na mente daquele homem uma imagem que ele, tinha certeza, guardaria para sempre.
Elfinho voltou para o céu e, antes da reunião daquela noite, disse a Papai Noel...
- O senhor lembra daquela carta maluca que recebemos do Bundinha Doente pedindo uma mulher
como presente de natal? Hoje eu vi a mulher que ele quer...
- O nome do homem e’ Horinando Bundin Dodói... Guardei a carta... Falou papai Noel.
- Mas como você sabe ser a que ele quer? Finalizou.
- E’ uma Brasileira, loira e de bunda grande... Bonita pra cacete... Ta’ na cara! Ademais, ela tem
cara de quem gosta de chup...
- Para! Modere seu palavreado. Isto aqui e’ o céu. Não o botequim que você frequentava quando
estava vivo e era bicheiro...E o que você fez? Indagou o “velinho”.
- Nada! Eu não sabia se o senhor queria dar a mulher ao cara...
- Por falar nisso, o que você estava fazendo em Boston ao invés de trabalhar aqui? Estamos
enrolados ate' o pescoço e você passeando? Indagou Papai Noel.
- Estava com vontade de fumar um cigarrinho e tomar uma cerveja e senhor proíbe tudo aqui...
Respondeu Elfinho.
Depois de ouvir a historia, Papai Noel levou o assunto `a reunião daquela noite e ficou resolvido que, se fosse possível, ele deveria dar a mulher de presente. Além de fazer o cara feliz, ganharia mais um aliado para comprovar a veracidade deste mito que envolve o Natal.
Ali mesmo, ordenou `a Elfinho, aquele duende rebelde, que voltasse ao mesmo lugar no dia seguinte e falasse com a mulher, de qualquer maneira...
Todas as noites, Elfinho voltava para o céu, com um bafo de cerveja e cheiro de cigarro difícil de aguentar dizendo a Papai Noel; “- Nada!”
Os dias se passavam e todos no céu ja’ estavam preocupados. Agora era uma questão de honra... A mulher tinha que ser encontrada. O dia de Natal estava chegando...
Finalmente, na manha do dia 23, Elfinho, de volta `a Boston, estava quase jogando seu cigarro fora quando uma estranha pediu que acendesse o cigarro para ela. Ele tirou o isqueiro do bolso, o acendeu, e sentiu uma das mãos da mulher tocando a sua, tentando proteger a chama do vento gelado. Ao levantar o rosto, em sua direção, levou um susto... Era a mulher por quem procurava...
Desta vez não podia deixa-la escapar. Usando de toda sua sutileza, passou a mão na bolsa da mulher e saiu correndo.
Como era um duende, podendo ate’ voar se quisesse, ninguém o alcançou...
Logo após bisbilhotar seus documentos e escrever o que interessava, voltou ao mesmo lugar e devolveu a bolsa `aquela mulher... Assim que ela viu o baixinho gritou: “- Foi esse ai quem roubou minha bolsa!”
Pra que! Começaram a meter porrada no pobre duende que, se não conseguisse voar, morreria pela segunda vez.
Quando Papai Noel o viu chegar ao céu todo arrebentado, perguntou:
- O que aconteceu?
- Deixa pra la’ “patrão”. Tenho aqui todas as informações daquela mulher...
Papai Noel conferiu tudo que Elfinho escreveu em um papel e começou a traçar seus planos para satisfazer o pedido que o homem havia feito naquela carta maluca.
Na mesma noite “fez” com que Horinando pensasse em entrar num dos sites de namoro pela Internet. Tratou que a “coincidencia” o fizesse escolher mesmo que a mulher também frequentava...
A tristeza da noite solitária daquele homem, foi completamente transformada quando viu o primeiro perfil. Alem da foto que “tinha certeza” ja’ havia visto antes, O cabeçalho de sua descrição dizia: “Procuro por um homem que goste de mim, não so’ da minha bunda...”
Horinando mandou uma mensagem e, imediatamente foi respondido.
Mais duas mensagens e a mulher lhe deu o numero do telefone. Mais alguns minutos e ja’ estavam conversando `a viva voz, começando a se entender e, em poucas horas, descobriram um no outro o que sempre procuraram... Agora! Diz que Papai Noel não sabe o que faz...
No dia seguinte, véspera de Natal, quando haviam combinado se encontrar, conversando casualmente, Nilde, nome daquela mulher, disse que tinha a sensação que ja' houvessem convivido antes. Que apenas estavam se reencontrando...
Na primeira vez que Horinando ouviu esta sentença não deu muita importância.
Quando ouviu a mesma observação pela segunda vez, como que por instinto, sorriu. Nilde olhou para ele, sorrindo também e me perguntou:
- O que foi?
Sorriu novamente! "O que foi?" Insistiu curiosa...
Ele a olhou e disse:
- Ja' sei! E' verdade, ja' havíamos nos visto antes...
- Quando? Perguntou Nilde.
- Em Boston, andando na rua. Tentei conversar mas não recebi tua atenção. Depois de varias
tentativas, você pegou o ônibus e foi embora. Hoje, depois que te conheci pessoalmente, sabendo
que teu irmão vive em Boston, me lembrei que foi la' que te vi pela primeira vez.
Ela olhou para seu companheiro, como se estivesse tentando reconhece-lo e, depois de algum tempo, apenas sorriu. Não sabia se convencida, se conscientizada de que esse fato era real ou apenas reflexo das muita imagens que, na esperança de se encontrarem, fizeram um do outro e agora, depois de algum tempo, começavam a tomar forma.
Depois de passarem o dia juntos, repleto de conversas, passeios, reflexões, troca de carinhos, decidiram começar a explorar mais a magia daquele encontro. Se deram a mão e saíram felizes com o presente de Natal que haviam se dado um ao outro...
Do céu, Papai Noel olhava, feliz ao constatar que o plano havia dado certo...
Elfinho, a seu lado, percebendo a felicidade do velhinho, perguntou...
- E se este encontro não tivesse dado certo?
Papai Noel, olhando para ele com um olhar de quem sempre soube o que fazia, apenas sorriu ironicamente, em resposta...
- Não era mais fácil pegar logo a mulher e dar para ele amanha, ao invés de ter corrido o
risco de não se entenderem? Perguntou Elfinho.
Papai Noel, olhando para ele mais uma vez, com toda sabedoria, respondeu:
- Você sabe me dizer como fazer uma bunda daquele tamanho passar pela chamine'?...
Copyright 2013 Eugenio Colin
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
CHRISTOBEL
Christobel
Christobel, costumava dizer que o Natal como uma festa sem o menor sentido, apesar de viver em Santa Claus, Indiana, conhecida como "a cidade do Natal dos Estados Unidos."
Segundo ele, a noite de 24 de dezembro era a mais triste do ano, porque muitas pessoas se davam conta de quão solitárias eram, ou quanto sentiam a ausência da pessoa querida que não esteve presente durante o ano.
Mas, Chris era um homem bom. Achava que “Natal” foi criado pelo comercio para iludir o crédulo e vender tudo que ninguém precisava...
Tinha uma família unida e amorosa, sempre ajudava ao próximo, e era honesto nos negócios. Entretanto, não podia admitir que as pessoas fossem ingênuas a ponto de acreditar que um Deus havia descido à Terra só para consolar os homens.
Sendo uma pessoa de princípios, não tinha medo de dizer a todos que o Natal, além de ser mais triste do que alegre, também estava baseado numa história irreal; um Deus transformado em homem.
Como sempre, na véspera da celebração do nascimento de Cristo, sua esposa e seus filhos se prepararam para ir à igreja e, como de costume, ele resolveu, mais uma vez, deixá-los ir sozinhos, dizendo:
- Seria hipocrisia da minha parte acompanhá-los. Estarei aqui esperando pela volta de vocês.
Quando sua família saiu, sentou-se em sua cadeira preferida, acendeu a lareira, e começou a ver as noticias daquele dia, pela televisão.
Entretanto, logo foi distraído por um barulho na sua janela, seguido de outro e, mais um.
Achando que se tratava de alguém jogando bolas de neve, pegou o casaco para sair, na esperança de dar um susto no intruso.
Assim que abriu a porta, notou um bando de pássaros que haviam perdido o rumo devido a uma tempestade e, agora tremiam na neve.
Como aqueles passaros haviam notado a casa aquecida, tentaram entrar, mas, depois de repetidas tentativas chocando-se contra o vidro, machucaram suas asas, e não podiam mais voar. "- Não posso deixar essas criaturas aqui fora", pensou Chris. "- Como ajuda-las?"
Ele foi até sua garagem, abriu a porta e acendeu a luz.
Os pássaros, porém, não se moveram.
"- Eles estão com medo", pensou...
Então, entrou na casa, pegou alguns miolos de pão, e fez uma trilha até a garagem aquecida... A estratégia não deu resultado.
Christobel abriu os braços, tentando conduzi-los com palavras carinhosas, tentou empurrar delicadamente um e outro, mas os pássaros ficaram ainda mais nervosos. Começaram a se debater, andando sem direção pela neve e gastando inutilmente o pouco de energia que ainda possuíam.
Ele já não sabia o que fazer...
- Vocês devem estar me achando uma criatura aterradora. Disse, em voz alta. Será que não entendem
que podem confiar em mim? Finalizou..
- Se eu tivesse, neste momento, uma chance de me transformar em pássaro, só por alguns minutos,
vocês veriam que eu estou apenas tentando salvá-los! Disse, como se estivesse conversando om as
aves.
Neste momento, o sino da igreja tocou, anunciando a meia-noite...
Um daqueles pássaros transformou-se em anjo com asas prateadas e reluzentes que se moviam ligeiramente, iluminadas por um raio de luz que vinha de uma das estrelas do céu. Tentando manter-se parado, poucos metros acima do chão disse `aquele homem assustado, imobilizado por uma cena inusitada pela qual não estava esperando:
- Agora você entende por que Deus precisava transformar-se em Homem?
Copyright 2013 Eugenio Colin
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
PAPAI NOEL
Papai Noel
Estava sentado na sala de visitas da casa da Sheila, amiga de muitos anos, quando ouvi Pedrinho, seu filho mais novo dizendo:
- Victor! Papai Noel não existe... Você parece mais criança do que eu...
O assunto dos meninos, em uma conversação paralela `a nossa era, evidentemente, o Natal.
Imediatamente, minha amiga, que conversava animadamente, quase como que usando as mãos como palavras, deixando sobrar uma porradinha de leve em meus bracos de vez em quando, talvez, em sua ideia, tentando me manter acordado, sem de leve saber que sempre mereceu minha total atenção em nossas conversas, neste caso, sem a necessidade de me catucar tanto, parou de falar e disse:
- Ta vendo! Isto e’ o que se ensina nas escolas hoje em dia...
Ao realizarmos que não conseguiríamos entender o motivo, ou origem, da conversa dos meninos, continuamos a nossa...
Dias depois, lembrando daqueles momentos agradáveis que desfrutamos, pensava na afirmação do Pedrinho... “- Victor! Papai Noel não existe...”
Mina imaginação me reportou aos meus dias de criança...
Uma das lembranças mais vividas que trago em minha memoria e’ um poster muito grande, com mais de um metro de altura onde se via aquela famosa figura de Papai Noel, pintada por Norman Rockwell, com o dedo polegar apontando para um quadro onde estava escrito: “Trouxe o que me pediram, cumpram o que me prometeram...”
Este poster “apareceu” em frente a minha cama em uma manha de Natal...
Procurando pela verdade, ja’ que, por algum tempo em minha vida, me sinto apto a tomar minhas próprias decisões, me deparei com centenas de artigos, alguns inclusive muito bem detalhados, que provam cientificamente que Papai noel nunca poderia existir...
Alguns outros, não tao bem elaborados, que afirmam justamente o oposto: Papai Noel existe!
Mas, de tudo que li, o que mais me chamou atenção foi a declaração de uma Psicanalista Australiana, Melanie Klein (1882-1960) que relata ter experimentado negar a existência do “velinho” a seus filhos. Ela acreditava que a realidade devia prevalecer em qualquer circunstância... Um dia, perto do Natal, se deparou com um pedido dos filhos para se mudarem para a casa da vizinha. Ao tentar saber o motivo daquele pedido, ouviu em resposta: “- E’ que la', Papai Noel existe.”
Não estou aqui me referindo a mentir ou dizer a verdade... Estou falando sobre crença ou descrença...
Em um dos mais importantes documentos da humanidade, a Declaracão da Independência Americana, uma das passagens mais marcantes afirma “que todos os homens são criados iguais, que eles são dotados pelo seu criador com certos direitos inalienáveis, que entre eles estão Vida, Liberdade a a busca da Felicidade.”
Estas palavras tem ajudado a ditar os destinos de Americanos e vários outros povos através dos anos.
Ora, se tenho direito `a busca da Felicidade, então posso decidir em que acreditar para ser feliz, certo?
Mas, e’ cientificamente impossível provar que Papai Noel existe...
Também e’ cientificamente impossível provar como o mundo começou... Existem teorias e’ fato mas, nenhuma delas podem ser comprovadas... Os cristãos dizem que foi Deus quem criou o mundo.
Os céticos diriam; mas se nem Deus existe como pode alguem ou entidade que não existe criar algo real como o mundo?
Alguns cientistas acreditam na teoria do “Big Bang” como o inicio do mundo. O que afirmam ser a explicação mais provável... Provável! Não comprovável!
Ninguém estava la’, naquele momento, para atestar... Então, posso dizer que o mundo não existe... Mas eu estou aqui, agora, como não existe? Neste caso a coisa se torna mais complicada ainda! Estamos vivendo em um mundo que não sabemos como apareceu, mas temos que acreditar nisso, ja’ que aqui estamos...
Mas se o “Big Bang” não pode ser comprovado e e’ só o que temos, porque temos que comprovar a existência de Deus? Ou Papai Noel?
Porque temos que acreditar so’ no que e’ comprovável?
Nos Estados Unidos, centenas de cientistas tentam desvendar os mistérios que envolvem as atividades do cérebro humano. Ate’ hoje não sabemos como muitas atividades do nosso cérebro ocorrem. A consciência, os sonhos, o medo, como nossa memoria e’ arquivada, a percepção, movimento e reação, são alguns dos mistérios do cérebro que talvez nunca sejam esclarecidos
Então? Nosso cérebro existe? Claro que exite! So’ não sabemos como funciona...
Desde que nascemos sempre convivemos e vamos continuar convivendo com fatos inexplicáveis... Porque só Papai Noel tem que ser explicado?
Papai Noel e’ importante para uma criança. Desrespeitar a fase de desenvolvimento na qual a criança precisa usar a imaginação para entrar aos poucos na realidade pode ter o efeito contrário. Quando não encontra espaço para transgredir com suas histórias fantásticas porque é tachada de mentirosa, a criança pode crescer se reconhecendo como tal.
As lembranças de nossa infância são as mais importantes em nossa vida.
Kane ( do filme Citzen Kane ), o homem nais rico do mundo `a sua época, morreu dizendo “Rosebud”, nome de seu skate quando era menino e pobre, a única lembrança feliz de sua vida.
Creio que os que defendem a existência de Papai Noel são mais simplistas, menos elaborados, porque acreditam ser algo tao real e evidente que não necessita de muitas explicações... Ja’, as teorias complexas tem que estar sempre procurando algo para justificar a falta de probabilidade encontrada a cada descoberta.
Desmentir a fantasia de uma criança e’ o mesmo que podar sua criatividade e imaginação definitiva e perigosamente.
A vida e’ uma transição gradual onde ela mesma se encarrega, inexplicavelmente, de corrigir percepções, ajustar pensamentos, e como um filtro separar ficção de realidade. A diferença e’ que o remanesceste dessas fantasias separadas pelo “filtro da vida” ao invés de serem descartadas, serão guardadas definitivamente em nossa memoria, sempre acompanhadas de um sorriso puro e infantil, a cada vez que forem chamadas, mesmo que por alguns segundos, `a realidade em que vivemos no momento, certamente bem mais complicada.
Pedrinho estava errado. Papai Noel existe! E, o mais maravilhoso e’ que cada um de nos tem o poder de encontra-lo de sua forma pessoal e particular.
E, o pior e’ que, vai chegar um dia em sua vida, quando pensar que sabe tudo, em que vai procurar por Papai Noel e não vai encontra-lo em suas lembranças porque, quando era criança, acreditava que o “velinho” era apenas uma mentira, que nunca fez parte da realidade na qual foi criado.
Copyright 2013 Eugenio Colin
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
PERMISSÃO PARA COMER O MEU PERU
Permissão para comer o meu Peru
Nas vésperas de Natal, Papai Noel recebe algumas cartas inusitadas, algumas das quais difíceis de acreditar. Esta foi uma delas, enviada da cidade de Intercourse, Pensilvânia, USA, votada pelos “Duendes” como a mais estranha do ano...
Querido Papai Noel,
Como o senhor bem sabe, América fica realmente especial nesta época do ano…
As ruas são enfeitadas com motivos natalinos, sinos prateados, fitas vermelhas e verdes, figuras de Papai Noel, laços vermelhos… Ate’ muitos carros são decorados por seus motoristas. Os Shoppings então, nem se fala. Parece que o espirito de Natal desce nesta terra. Isto acontece ano apos ano e, por incrível que pareca, todos ficam excitados, alegres, entusiasmados como se nunca houvesse acontecido, como se tudo fosse novidade, como uma criança que vê Papai Noel pela primeira vez.
Estações de radio tocam musicas de Natal o dia inteiro. Alguns canais de televisão exibem filmes de Natal diariamente, ouvimos histórias de milagres, alguns ate’ bastante plausíveis que, com um pouco de imaginação e boa vontade, bem que poderiam acontecer…
Aqui, em locais de trabalho, enormes árvores de Natal, que quase chegam ate’ o teto são armadas e decoradas e, ao lado delas, muitas vezes um CD player toca musicas de Natal o dia inteiro.
Antes do dia de Ação de Graças, muitas empresas distribuem `a cada empregado um brinde e, na semana antes do Natal, um presunto, daqueles que no Brasil ficam nas vitrines dos balcões das padarias, principalmente para fazer sanduíches.
Tudo isso, toda esta fantasia que paira no ar, nos faz sonhar, aderir ao “espirito natalino” como se diz e, transformar em realidade os nossos desejos mais íntimos e importantes.
Ela estava tao real… Parecia que a via comigo, a meu lado, sentada, como estivemos tantas vezes antes. A “contemplava” a meu lado, de pernas cruzadas, relaxadamente feliz, com as mãos no queixo, olhando para mim com o um sorriso maravilhoso, esperando que eu tomasse a iniciativa…
Olhei para a moca, tirei o peru que trazia guardado `a algum tempo e botei para fora. Imediatamente “vi” sua mão linda e delicada segurando o peru pela ponta. Com um sorriso alegre, realizado, feliz, o colocou em sua boca de uma so’ vez, como se fosse um petisco, ainda olhando para mim, como se estivesse pedindo autorização , como se precisasse de permissão para comer o meu peru que, e’ claro, como tudo mais que tenho, seria dela também.
Sentia esta presença tao viva e real, a mesma que me acompanha dia e noite, onde quer que eu va’, o que me alegra com uma companhia tao doce e agradável e que muitas vezes me faz sorrir sozinho, lembrando de nossas "conversas", de algo que disse e a fez feliz e, da felicidade que aquele sorriso me trouxe.
Ainda fiquei algum tempo sentado, no mesmo lugar onde, apenas alguns minutos atrás via a mesma linda figura em minha frente, enchendo a casa de alegria e felicidade, com o som daquela voz ecoando pelas paredes que há alguns meses eram tao tristes e agora parecem que entendem o que ouvem e fazem com que as palavras ressoem, como tentando a tarefa impossível de embelezar aquela linda voz.
Mais uma vez olhei para ela, segurando o peru que havia colocado na boca, mordendo delicadamente como se estivesse com medo de machucar.
Estava curioso… Os dois tomates ainda estavam no mesmo lugar, ela ainda não os havia tocado. Toda vez que pegava o peru, via sua mão encostar em um deles mas, agia como se estivesse querendo evita-los… Sera’ que vai deixar para o final, para depois que estiver saciada, ou sera’ que não gosta dos tomates que acompanham o peru, pensei…
Sinceramente, ao botar o peru pra fora, ate' havia pensado em fazer uma sacanagem mas, como todos sabem, sacanagem sozinho não e' a mesma coisa. Alem do mais, o trabalho em agrupar em um palito tantos ingredientes, so’ vale a pena se tivermos alguem com quem dividir trabalho e prazer...
Estava tao envolvido, tao absorto em meus pensamentos que nem percebi quando o sinal do forno me avisava que a refeição ja’ estava pronta.
“Despertei”! Olhei para “ela” mais uma vez e percebi que estava sonhando acordado. Acho ate’ que “vi” quando ela não estava sentada na cadeira e sim dentro de mim com uma presença tao real e absoluta que por vezes se torna difícil de entender onde realidade e fantasia se separam.
Levantei, ainda sorrindo, fui ao forno trouxe para a mesa o peru que havia acabado de preparar, juntamente com os tomates que antes havia descascado. Coloquei tudo sobre folhas de alface, “enfeitei” o peru com algumas fatias de cebola e trouxe para onde, apenas alguns minutos atrás, estava “sonhando”.
Tenho certeza que, algum dia, vou ter a chance de, muitas vezes, dividir com alguem o peru, com ou sem os tomates, ou qualquer outra refeição que eu preparar... Mas a ansiedade que este momento chegue depressa e’ tao grande que, muitas vezes, me vejo sonhando acordado, me deliciando com uma mulher ainda “sem rosto”, vivendo o futuro, tentando segurar junto a mim este sonho, o quanto puder, na esperança de que assim o fazendo, possibilite ao tempo passar correndo, sem nos enxergar, sem ver minha pressa em vê-lo `as nossas costas.
Hoje, sonhei com quem ainda não conheço e, por alguns segundos ela esteve aqui comigo, compartilhando uma das tradições Americanas, ceando comigo o peru de Thanksgiving.
Sei que e’ difícil para o senhor dar mulheres de presente mas, sendo Papai Noel e sabendo de tudo, talvez consiga e, se for possível, escolher uma para mim, dê preferência a mesma com quem vivo sonhando por algum tempo e que, ate’ ja’ colocou meu peru na boca...
Por favor, encontre ela para mim...Não estou querendo lhe ensinar o que fazer mas, se a achar e mencionar o que ela fez, e' bem provável que se lembre.
Ah! Se por acaso o senhor for entrar com ela pela chamine', tome cuidado... A bunda dela e’ grande, e pode ficar “engasgada”...
Obrigado e, Feliz Natal!
Horinando Bundim Dodói.
Copyright 2013 Eugenio Colin
terça-feira, 26 de novembro de 2013
SINAIS DE DEUS
Sinais de Deus
Em 1993, por oitenta e um dias consecutivos o grande Rio Mississippi permaneceu inundado, matando cinquenta pessoas e causando um prejuízo enorme em danos e perdas. Muitos diziam que aquela era uma enchente que chegou e decidiu ficar para sempre. As águas cobriam uma área de mais de quarenta e quatro mil quilômetros quadrados...
Todos que tinham chance estavam evacuando, assustados e temerosos.
Dick Crotch um homem muito religioso, temente a Deus, estava em pé na varanda, com água cobrindo sua pernas, quando o motorista de um daqueles caminhões enormes, que as rodas são maiores do que uma pessoa, que por sua casa passava, falou:
- Vem! Te dou uma carona. A enchente esta’ aumentando muito rápido...
- Não se preocupe, meu Deus vai me salvar... Disse o Dick, invocando toda sua fe’...
O caminhão foi embora, rapidamente tentando fugir da situação...
As aguas estavam implacáveis, subindo rapidamente.
Dick, tentando se proteger, agora estava na varanda de um quarto no segundo andar da casa.
Ali esperava quando apareceu um barco que ja’ havia resgatado alguns moradores desesperados. Assim que o homem ao leme do barco viu seu vizinho, falou:
- Dick, vamos embora, a enchente esta’ enorme...
- Não se preocupe, meu Deus vai me salvar... Disse Dick com toda sua fe’ do mundo...
O barco se foi, deixando o homem para traz...
Mas a enchente não queria saber conversa e continuava inundando tudo.
A esta altura, nosso amigo ja’ estava em pe’ no teto da casa quase totalmente coberto pelas águas...
Olhando para cima viu um helicóptero jogar uma corda e o piloto gritar:
- Vem! Esta cidade vai ser completamente destruida em alguns minutos...
- Não se preocupe, meu Deus vai me salvar, respondeu Dick, com toda fe’ do universo...
O piloto olhou para ele, balançando a cabeça, como se estivesse dizendo, “Que babaca!”
A agua inundou toda a cidade, arrasou tudo e Dick morreu afogado...
Chegando ao céu, indignado pelo descaso do Criador, por ele esperava, pronto para lhe dar o maior esporro...
A demora o irritava cada vez mais. Pensava na maneira mais agressiva de confrontar Deus, quando o viu ao horizonte, caminhando vagamente sobre as nuvens...
Mesmo de longe, assim que avistou Dick nervoso, andando de um lado para o outro, começando a abrir a boca, Deus disse:
- Nem vem! Não quero ouvir nada! Te mandei um caminhão, um barco e um helicóptero... Que mais
você queria?
A historia de Dick Crotch nos lembra um fato muito importante... Devemos sempre saber distinguir e, principalmente, não ignorar os sinais de Deus.
Copyright 2013 Eugenio Colin
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
JUJUBA
Jujuba
Jujuba costumava dizer que se não fosse pela falta de sorte ele não teria sorte de especie alguma.
O interessante e’ que apesar de ter feito um sacrifício filho da puta para perder quase sessenta quilos seu apelido continuava o mesmo... O problema e’ que ninguém havia conseguido qualifica-lo adequadamente. Não podia ser chamado de “palito” ja’ que não era esquelético, não podia ser chamado de “atletico” porque havia acabado de emagrecer e seus músculos ainda estavam flácidos. Ser apelidado de “Hulk” então, nem pensar... Na falta de uma nova classificação adequada a seu novo porte físico, a alternativa era continuar sendo “Jujuba”. O que, diga-se de passagem não o aborrecia muito... Aos dezenove anos de idade ainda estava por decidir o que era menos pior, “Jujuba” ou Carlozencio Aparecido das Neves, seu verdadeiro nome.
Mas ele nem se preocupava com o nome ou apelidos pejorativos. Tinha um problema maior em sua vida de adolescente... Estava apaixonado pela Márcia...
Márcia era a garota mais popular e, alem disso, fazia parte do time de natação do clube que frequentavam. As garotas na natação eram como o chantili do bolo... Primeiro porque tinham que mostrar as coxas para todo mundo. Ninguém nada vestida! Segundo porque não gostavam dos homens que nadavam, que eram os mais bonitos do clube... Elas diziam que só tinha bicha na natação...
Todo mundo queria namorar a garota...
Um dia de passagem, Márcia disse; “Alo, tudo bem?” ao cursar por Jujuba. O cara só não se cagou todo porque ainda estava naquela dieta rigorosa, para perder os últimos quilinhos recalcitrantes e, o dia inteiro ainda hão havia colocado nada no estomago. Naquele dia que ela o cumprimentou quando passou pelo rapaz em uma alameda do Tijuca, ele ficou tao nervoso que deu uma porrada com a cabeça na parede que nem viu`a sua frente... Quando chegou em casa com a testa sangrando, ainda meio desnorteado, seu pai perguntou: "quem fez isso com você?" Sem mesmo saber o que estava falando respondeu: " A Márcia!" Ainda ouviu seu pai comentar: "Agora você apanha de mulher?
Mas seu pai não sabia de nada. A Márcia havia falado comigo, e isto era algo para ser guardado a vida inteira. O machucado na testa ficaria curado em alguns dias...
Ela acabou namorando o Egberto, campeão de tênis do clube, cabelos pretos olhos azuis e quase dez centímetros mais baixo do que Márcia. Como alguns atores do cinema Americano que cismam em se casar com mulheres mais altas do que eles.
Mas Egberto não tava nem ai, era o maior cara de pau... Namorava a menina mais linda e cobiçada do bairro e ainda “galinhava” atrás de qualquer rabo de saia que cruzasse seu caminho.
Um dia Márcia se encheu de tanta falta de respeito e terminou o namoro com o Egberto. O cara ficou tao abalado que foi pego chorando pelos cantos escuros do clube varias vezes... Pediu, implorou, prometeu mas Márcia estava irredutível... Não queria mais saber do cara...
Jujuba, por sua vez também tinha seus interesses amorosos atrás dele. A primeira foi a Angela, apelidada de Angela Man. Diziam que ela andava igual a um homem. Reta, sem o menor rebolado, depois foi a Frieda Staerke, loira, olhos azuis... Gordinha, meia "sem sal" e, segundo a maioria dos rapazes, cheirava a sabonete. Parecia que havia acabado de sair do banho, não importava a hora do dia, o que, pensando bem, e’ mais uma qualidade do que um defeito.
Mas Jujuba não era de deixar vencer pelo destino padrasto que o perseguia... Apendeu a dançar... Dançava como ninguém! Nas ferias escolares, quando não precisava acordar cedo, ia a baile de formatura todo o dia... Ate’ as mães das meninas faziam fila para dançar com ele. Por isso mesmo, com o tempo, as garotas começaram a achar que o Jujuba so’ gostava de coroa e, não queriam mais dançar com ele. E’! O cara era mesmo sem sorte...
Um Sábado, estava programado o “Baile da Maria Cebola”, no clube em que frequentava. Jujuba nem queria ir... Gostava de dançar, certo! Mas achava que nenhuma menina o convidaria e assim sendo estaria se preparando para tomar chá de cadeira a noite inteira e o pior e’ que uma das “regras” do baile, alem da tradicional; homem não pode tirar mulher pra dançar, era que, ninguém poderia recusar o convite de uma dama... Ora! Então, o “Baile da Vinganca” como era apelidado pelos pobres meninos sempre rejeitados, não faria o menor sentido... Durante o ano inteiro os caras eram ignorados. Agora, no único dia em poderiam dar o troco, “tiraram o dinheiro de seus bolsos.”
Mas, Sábado sozinho em casa, assistindo ao Moacyr Franco Show, em preto e branco, não era, nem de perto pareo para o baile da Maria Cebola... Pelo menos no baile as garotas eram em cores...
Começou o baile e nada... A musica era excelente. Os rapazes da natação, mesmo sendo bicha, estavam dançando o tempo todo, o Egberto então, nem se fala. mas Jujuba estava la’ sentado no mesmo lugar, quase com calo na bunda.
Ja’ haviam se passado quase duas horas de baile quando, distraído, uma mão batendo com os dedos na mesa, sequencialmente e a outra segurando o rosto, quase sonolento, sentiu um perfume familiar e uma mão suave e delicada tocando seu pescoço... Levantou a cabeça ainda a tempo de ver o rosto mais lindo do mundo falar ao seu ouvido;
Dança comigo!
A Márcia! `A sua frente, trajando um vestido preto com bolinhas brancas, cabelos soltos como não costumava usar, mais linda do que nunca...Novamente! Jujuba so’ não se cagou todo porque não tinha o habito de comer nada antes de ir a um baile.
Pergunta se Jujuba recusou o convite... Dançaram a noite inteira... E toma elogio da Márcia... Você dança tao bem... Como você esta’ elegante... Adorei seu penteado assim para o lado... Você esta’ parecendo um ator de cinema Americano... Adoro a maneira que você me segura, firme e delicadamente ao mesmo tempo...
Depois de tanto elogio, se a cueca de Jujuba não fosse nova e bem apertada, a pobre da Márcia seria arremessada pro lado de forra do salão pela “catapulta” do rapaz.
Em dado momento ele ate’ contemplou a possibilidade de se matar ali mesmo. Morrer dançando com a Márcia era o passaporte para o paraíso. Depois acabou desistindo da ideia... Não queria ensanguentar um vestido tao lindo.
O cara não acreditava o que estava acontecendo... Imagina so’! Ate’ o Egberto estava com ciumes dele.
No fim do baile, Márcia falou:
- Aparece mais! A gente pode ate’ conversar depois dos treinos...
Jujuba nunca apareceu... E’ Claro que a garota estava de gozação. Pensou... “A mais cobiçada do bairro dando bola pra mim?” Devo estar jogando pedras na lua...
Então, aconteceu um fato inusitado na vida do Jujuba...
A Maria Luiza, que havia acabado de terminar o namoro com o Vadeco. Pediu então ao Celinho, amigo de ambos, para perguntar se Jujuba tinha namorada, ja’ que estava interessada nele por muito tempo. Jujuba havia acabado de terminar o namoro com a Marinete, uma magricela de bunda grande, que nunca havia conseguido esquecer seu primeiro namorado, e vizinho, o Caique...
Sem nem pensar, Jujuba disse ao Celinho que tinha namorada, porque não queria namorar ninguém com nariz grande e torto.
Não! Ca’ entre nos, nessa Jujuba tinha razão...A menina era bonitinha, magrinha, coxinhas grossas, peitinhos iguais a laranjas lima maduras, lábios carnudos e bom de beijar mas, o nariz da moca faria qualquer bruxa morrer de inveja. O que ele nem teve tempo de saber e’ que a menina era um doce de pessoa, inteligente, culta, preparada, extremamente educada mas, aquele nariz...
Anos depois, em um restaurante da praça Saenz Pena, na Tijuca, Jujuba viu um casal que chamava atenção de todos... O homem era como um gala de cinema Americano, ou de novela, se você se julga um nacionalista recalcitrante e, a moca, capaz de fazer a Sophia Loren parecer uma empregada domestica.
Ainda tinha a linda mulher na mira dos olhos quando a viu se aproximando em sua direção. Por via das duvidas ainda olhou para trás, só para se certificar se era mesmo em sua direção que ela andava. Assim que olhou para frente novamente, ouviu:
Lembra de mim? Sou a Maria Luiza, costumávamos frequentar o mesmo clube...
Quando ouviu o nome a primeira coisa que olhou foi para o nariz. Perfeito, lindo, afilado e seu rosto era uma obra de arte... Milagres da cirurgia plastica...
- Este e‘ meu marido, Larry. Disse ela.
O aperto de mão do tal do marido foi tao forte que Jujuba não sabia se ele estava de sacanagem, tentando machucar alguem que por acaso houvesse “machucado” sua esposa no passado ou, se ele era mesmo tao forte assim, sem o menor esforco.
Se arrependimento matasse, Jujuba havia caído duro ali mesmo, com a cara dentro da vasilha de maionese do buffet `a sua frente... Ele nunca soube se Maria Luiza fez aquilo por vingança, como quem diz: “olha o que você perdeu seu babaca” ou se por educação.
E’! O cara era mesmo sem sorte...
Jujuba fez tanta cagada em sua vida, tomou tantas decisões erradas que acabou tomando a ultima que, segundo suas projeções proporcionais, acabaria de vez com sua existência... Arrumou as malas, sem mais nem menos, e decidiu se mudar para os Estados Unidos. A única coisa que sempre quis na vida foi namorar a Márcia, parecia ate’ uma obsessão mas, por outro lado, em sua mente, sabia que ela não era sardinha pra sua rede.
Havia ouvido falar das oportunidades nas terras do Tio Sam, assim sendo resolveu arriscar... Sua primeira surpresa foi que as mulheres Americanas o adoravam... Era só dizer que era Brasileiro e elas despencavam das arvores... Diziam que ele era bonito, simpático, inteligentes e ate outros elogios que, no inicio nem conseguia entender, ja’ que seu Inglês não era tao bom assim.
Mas, nosso amigo Jujuba mudou de pais mas não mudou seu comportamento. No Brasil dispensou, sem pensar, a única que se interessou por ele. Agora, no pais do Tio continuava dispensando todas elas...
Em um momento de sua vida ate’ flertou com a possibilidade de se tornar homossexual mas, pensando melhor, achava que devia doer muito...
Resolveu então, para acabar com conjecturas improváveis e impossíveis, pensar apenas no trabalho...
Começou trabalhando como garçon para custear seus estudos de Inglês. Assim que dominava o idioma, arrumou um emprego nas Nações Unidas como tradutor... Continuou estudando línguas... Agora, se dedicava também ao Italiano. Depois Frances, Espanhol e, finalmente Alemão.
Em menos de dez anos, passou de analfabeto em Inglês `a tradutor multilingue. Sua vida corria `as mil maravilhas. Depois então que conseguiu se convencer que era menos complicado viver sozinho, se considerava realizado e feliz.
Mais alguns anos e Jujuba era o mascote das Nações Unidas. Poderia traduzir os principais idiomas, estava sempre pronto pra trabalhar, não tinha mulher pra encher o saco e, quando se sentia muito só, com vontade de descarregar “sentimentos” acumulados, tinha uma lista enorme de colegas de trabalho que estavam loucas para ouvir falar e, ate’ mesmo conhecer de perto, as qualidades e utilidades do “Pau Brasil”.
A vida de Jujuba, que depois que se tornou cidadão Americano mudou o nome para Carl, Americano jamais conseguiria pronunciar “Carlozencio”, era perfeita... Nunca esteve tao feliz...
Certo dia foi escalado para um projeto no qual jamais havia participado. Uma reunião do G20.
Não estava preocupado... Nada mais do que rotina rotineira.
No dia da primeira reunião, uma hora antes, nosso amigo ja’ estava la’. Testava os equipamentos despreocupadamente quando uma linda loira entrou em seu cubículo.
A primeira reação, ao sentir aquele perfume familiar, foi de dizer: “to de ferias...To satisfeito por duas semanas...”
- Jujuba? Perguntou a mulher.
- Como você sabe do meu apelido de criança. Aqui todos me conhecem como Carl.
- Não se lembra de mim, não e’? Disse a mulher.
- Sinceramente, não!
- Sou a Márcia! Lembra? Da natacao?
Desta vez, só não se cagou todo porque costumava tomar um “breakfast” muito leve, a base de banana e frutas...
Mulher e’ uma coisa mas, a Márcia não e’, nem nunca foi uma mulher... Márcia era uma deusa. Parecia que agora, mais de trinta anos depois, ela estava ainda mais linda, mais segura, mais imponente... A Márcia parecia uma escultura em que o tempo, nosso escultor tao temido, havia conseguido aperfeiçoar.
Nosso amigo, abriu a boca, quase babando, sentou numa cadeira que, providencialmente, estava atrás dele, evitando que metesse a bunda no chão e, não pode segurar uma lagrima espontânea que teimava em lembra-lo do passado.
Assim que percebeu, ela se inclinou, limpou aquela prova de carinho com seu polegar e o beijou carinhosamente no rosto...
Foi preciso alguns segundos para que Carl se refizesse e conseguisse perguntar:
- Como vai você? O que esta’ fazendo aqui?
- Vim com a delegação do Brasil e alguem me descreveu o “melhor tradutor” da UN e, não sei
porque, pensei ser você... Vim aqui confirmar...
A conversa durou por quase uma hora e so’ foi interrompida quando a reunião começou e Carl interpretava...
Márcia ficou a seu lado o tempo todo. Não pode deixar de notar a diferença naquele garoto tímido que conhecera quando mais jovem.
Foram mais de três horas nas quais ela, pacientemente esperava sua chance.
Ao termino de sua tarefa, ao saírem do edifício, Carl se ofereceu a levar Márcia a seu hotel ou onde estivesse hospedada.
- Carl, se você não se importar gostaria de ficar com você. Soube que você agora
mora aqui em Nova Iorque, certo?
O cara engoliu em seco... Não era possível! “A Márcia, pedindo para ir ao meu apartamento? Eu sei que não estou sonhando. Então, o que esta’ acontecendo?” Pensou.
Só não se cagou todo porque não ficava bem...
Andando de mãos dadas pelas ruas de Manhattan, trocavam confissões... Carl dizia que nunca havia se casado. Nem mesmo namorada tinha... Márcia soltou a bomba quando falou:
- Jujuba, ou Carl, como preferir, você esta’ tao bonito. Tao seguro de si. Nem de perto
me lembra aquele menino tímido que conheci...
Sabe que depois daquele baile em que dançamos a noite inteira nunca mais quis
namorar ninguém? No clube, alguns dos rapazes queriam me namorar para tirar
onda. Na PUC, quando la’ estudava, todo mundo queria dormir comigo porque diziam
que eu era gostosa...
De vez em quando dava uma trepadinha inconsequente, so’ pra não perder a forma
mas nunca mais queria ver o cara...
O único homem que eu gostei foi você. Você sempre me respeitou... Era muito tímido
pro meu gosto mas isso era o teu charme... Você era diferente de todos...Todo
mundo queria se fazer de bonito pro meu lado. Você era autentico e, nunca dancei
com ninguém que dançasse tao bem...
Estou muito feliz por poder te ver novamente...
- Posso te fazer uma pergunta? Indagou Márcia.
- Claro! Disse ele.
- Porque você deixou escapar uma lagrima quando me viu?
Pronto! Agora o cara se derreteu... Começou a chorar de verdade.
Márcia o abracou, segurando a cabeça do amigo e a descansando sobre seu ombro. Com uma das mãos ele tentava enxugar as lagrimas que insistiam verter. Com a outra mão segurou a cintura da amiga, com a mesma determinação que fizera anos antes, na única vez em que dançaram a noite.
- Márcia, a alegria de te ver foi o maior presente que jamais recebi em minha vida. Disse ele, ainda
tentando se controlar. Você tem certeza que quer ficar em meu apartamento hoje? Finalizou...
- Hoje, amanha... Pelo tempo que eu estiver aqui, se você quiser. Disse Márcia.
- Tem certeza? Perguntou Carl.
- Absoluta!
- Muito bem! Então amanha, quero que você comunique `a tua delegação que esta’
saindo do emprego... Nos casamos e você fica aqui comigo... Se quiser te arrumo
um emprego na UN...
- Aceito! Disse Márcia, sem nem pensar nas consequências...
Jujuba, quer dizer, Carl não podia estar mais feliz... Foram necessários mais de quarenta anos para que pudesse fazer as pazes com sua adolescência e, justamente quando Márcia começava a ser apenas uma doce, inesquecível e mais marcante recordação de sua juventude, ela aparece e, como um furacão que chega sem aviso, começa a jogar para cima as memorias do chão de suas lembranças
Depois de trocarem o primeiro beijo sob os primeiros flocos de neve que começavam a cair, nas ruas desertas de Manhattan, de mãos dadas, saíram os dois correndo ao encontro do futuro que acabava de começar.
E’! O cara teve em sua vida a única sorte que realmente importava...
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