sexta-feira, 11 de outubro de 2013
COMPENSAÇÃO
Compensação.
Carlinhos Calado era o melhor aluno da classe. Da escola também...
Sua necessidade de saber sobre tudo, nos mínimos detalhes, fazia com que ele fosse respeitado por professores, diretores, colegas, assim como por seus pais. E olha que seu pai era um juiz que se salientava por sua capacidade e domínio de quase todos os assuntos do presente e do passado.
Mas, apesar disto, as vezes Carlinhos não entendia palavras mais elementares e simples que se pronunciasse. Talvez porque queria entender mais do que sua compreensão permitia...
Um dia, em uma aula de Português,o subjeto era sobre palavras com mais de um significado.
A palavra daquele dia era "compensação"...
Apesar das tentativas da professora de explicar o significado daquela palavra tao comum, Carlinhos não entendeu bulhufas... Estava indignado! Para ele não havia aluno burro e sim professor que não sabia ensinar ou se fazer entender...
Naquela tarde, chegando em casa com um semblante sombrio e preocupado, seu pai indagava o que estava acontecendo.
Carlinhos contou que sua professora quis explicar o significado de compensação e ele não havia entendido.
Seu pai, usando sua verborreia intelectual, na tentativa de ajuda-lo falou:
- E' fácil meu filho...
Compensação tem vários significados... Pode ser, por exemplo, o salario mensal que alguem recebe. A compensação por seu mês de trabalho.
Em matéria de direito, pode significar uma forma de se extinguir uma obrigação em que os sujeitos
da relação obrigacional são, ao mesmo tempo ambas as partes. Neste caso, o termo compensar e'
tomado no sentido de equilibrar os débitos entre as partes ate' compensarem-se. Por exemplo Maria tem uma divida de dez reais com João enquanto este também possui uma divida de dez reais com aquela. Os débitos são extintos por compennsação... Entendeu?
- Não! Ta' muito mais complicado do que a explicação da professora.
- Compensação e' estabelecer um equilíbrio. Entendeu? Simplificou o pai.
- Não! Respondeu Carlinhos.
- Compensação e' o ato ou.efeito de compensar, estabelecer uma troca. Entendeu?
- Não! Estou confuso... Respondeu o menino.
- E' formar um equilíbrio, contrabalançar... Entendeu? Disse o pai.
- Quer dizer que se eu botar um gato na balança, e ver o seu peso, isso e' compensação?
- Não e' bem assim. Disse seu pai. E mais como se, por exemplo você ficar com algo que pertence a
outrem em troca do que outrem tem de você. Entendeu? Finalizou o pai.
- Não entendi nada! Estou cada vez mais confuso... Disse o menino.
A este momento, o pai, ja' sem paciência, decidindo "rasgar o verbo" na tentativa de, finalmente ser entendido, falou:
- Presta atenção! Se eu chegar em casa e encontrar tua mãe trepando com um estranho na minha
cama, o que você diria que eu sou?
- Bem! Neste caso o senhor seria um corno. Respondeu Carlinhos.
- Em compensação você seria um filho da puta. Finalizou o pai.
copyright 2013 Eugenio Colin.
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
PINTO MORTO
Pinto Morto
Tiers estava realmente exausto...
A industria de sutiãs e calcinhas que, juntamente com o irmão, havia herdado de seu pai havia se tornado em uma enorme multinacional com fabricas em vários países da América do Sul, Europa e Asia.
Tinha acabado de contratar um gerente para ocupar o seu lugar e, antes de assumir sua nova posição como Diretor Internacional, resolvera tirar um mês de ferias, o que não acontecia desde que, assustado, havia voltado do Japão com certeza absoluta que o representante maior de sua virilidade iria se desprender de seu corpo, como havia enfatizado Dr. Taka Noku, o especialista que havia consultado a respeito de uma protuberância anomálica que um dia notou em seu pênis.
Foram meses e mais meses fazendo xixi sentado no vaso, com seu membro na mão para que, quando caísse, não o perdesse para sempre e pudesse embalsama-lo, guardando como um troféu, recordação de dias gloriosos que jamais seriam revividos.
Com o tempo, muitos meses depois, começava a chegar a conclusão que o especialista podia estar equivocado. Seu membro, aparentemente, estava normal, não doía, aquela protuberância havia desaparecido e não sentia nenhum sintoma.
A única coisa que não queria em sua vida era outra mulher. Havia decidido que se so’ usasse seu pinto apenas para fazer xixi, não correria o risco de perde-lo. De vez em quando podia ete’, talvez, “acaricia-lo” um pouco... Como, quem sabe, um premio de consolação por sua abstinência...
O fato e’ que, para ele, depois daquela experiência, so’ o trabalho interessava. As funcionarias da fabrica onde trabalhava começaram ate’ a comentar que ele era homossexual o que, nem de leve, o incomodava. Melhor ainda! Pelo menos elas o deixariam em paz.
O dilema de Tiers agora era muito diferente... Onde tirar ferias? Conhecia toda a Europa. Estados Unidos, nem se fala. E’ claro que não seria maluco de visitar o Oriente Médio. China ou Japão lhe traziam tristes recordações reminiscentes do tempo em que la’ andou procurando cura para a doença que afinal de contas, aparentemente, não tinha. Estava cansado de viajar pelo Brasil. Conhecia tudo...
“O melhor mesmo e’ ficar um mês em casa pra aquietar.” Pensou... Pra aquietar? Pá quieta’? Paqueta’?... Isso mesmo! Nunca havia visitado a Ilha de Paqueta’, bem ali, debaixo de seu nariz... E’ bem verdade que viver um mês em uma Ilha que se pode visitar em meia hora ia ser difícil mas, quem sabe, ficar la’ uns três dias, relaxando na praia, tomando água de coco, cocando o saco... Talvez não fosse uma ma’ ideia.
Resolvido! Três dias em Paqueta’ e voltaria para casa, bronzeado e feliz, alem de economizar uma grana filha da puta.
O interessante e’ que desde de sua excursão pelo mundo, tentando salvar seu membro, Tiers havia se tornado extremamente frugal. Um dia, na praia de Copacabana, havia reclamado a um vendedor que cinco reais por um cachorro quente era um absurdo. Disse que podia comprar um quilo de salsichas por três. Tinha ate’ vendido seu BMW e comprado um Fusca. E’ bem verdade que havia pago uma fortuna pelo Fusca, ja’ que era quase novo mas, agora andava de Fusca, o que também tinha um efeito psicológico muito positivo, principalmente com os funcionários da fabrica.
Quando disse a seu irmão que iria tirar ferias em Paqueta’, este perguntou; “Paqueta’ a Ilha? Na Baia da Guanabara?” Pensando que seu irmão estava se referindo a algum local exótico em uma Ilha sabe-se la’ onde, no meio de que...
Tiers morava em um apartamento de cobertura na Vieira Souto. So’ ele e a cozinheira, Dona Carlota, uma senhora de sessenta anos. Era mais seguro do que ter uma faxineira e uma empregada com trinta anos cada uma.
Arrumou uma pequena mala, um monte de shorts, muitas camisetas, três camisas, uma calca e uma sandália, nem tomou cafe’ e, assim que o sol nasceu, la’ se foi ao encontro do paraíso perdido na Baia da Guanabara.
Quando chegou `a estação das barcas estava com fome mas, acabara de ouvir a campainha, primeiro sinal de que a lancha estava prestes a sair. A próxima so’ daqui a uma hora. Correu e conseguiu embarcar.
Na viagem, atraído pela paisagem maravilhosa do Corcovado que da lancha vislumbrava, pensava porque as pessoas dão sempre mais valor ao que esta’ fora de seu alcance. Ele mesmo, agora envergonhado, lembrava que nunca havia tido tempo para aquela viagem mas sempre conseguia espremer excursões Europeias em seu calendário.
Ao chegar em Paqueta’ procurava por um bar, na estação das barcas para, pelo menos, tomar um cafe’. Talvez ate’ resolver onde iria se hospedar. Na verdade, nem sabia se existia algum hotel na Ilha... Talvez uma pousada...
Quase deixando a estação , que não tinha nem água para beber, ja’ na calcada da praça, viu um carrinho onde estava escrito na lateral, "uma refeição completa"...
Sera’ que e’ seguro comer isso? Pensou, olhando para uns bolinhos, dentro de uma
forma, que mais parecia uma barca... Sera’ que isso e’ bom?
Mas, `aquela altura, a fome era maior do que a preocupação com segurança de sua saúde. Assim sendo, chamou por uma moca, de costas para o carrinho perguntando:
A senhora e’ a vendedora aqui?
Sou! Ouviu em resposta...
“O que esta mulher maravilhosa esta’ fazendo aqui, vendendo bolinhos? Deveria estar desfilando como modelo... Se eu a tivesse usado como modelo, tenho certeza que venderia muito mais calcinha ou sutiã ou qualquer outra coisa em que ela estivesse dentro...” Pensou, ao reparar o rosto e a silhueta da vendedora.
Pegou seu bolinho, pagou, agradeceu e saiu comendo...
Na segunda dentada, resolveu voltar. Chegou perto da vendedora e falou:
Puxa! Isso e’ muito gostoso... Me da’ mais um, por favor...
Olhou mais uma vez para a moca que para ele sorria, como se estivesse dizendo: “Gostou ne’!”
Desta vez, ao invés de andar, pediu um suco de laranja que ela também vendia e sentou-se em um banco, ali perto, para melhor poder saborear sua primeira refeição do dia.
Comia distraído, ainda prestando atenção `aquela mulher, tão linda, ali “perdida”.
Estava quase acabando seu segundo bolinho quando, de repente, como um flash back instantâneo, espontaneamente gritou: “Olinda?”
A moca arregalou os olhos... Nunca ninguém a havia reconhecido desde que resolvera se “aposentar”.
Olhou bem para aquele homem... Era muito novo para ter sido um de seus “clientes” mas, a voz, o rosto... Eram realmente familiares...
- Como você pode se esquecer de mim? Disse ele.
- Tiers? Disse Olinda, tentando, a todo custo, conter sua emoção ...
Ele não exitou. Aproximou-se dela, abracando e beijando carinhosamente aquela a quem alguns anos atrás pedira em casamento.
- O que você esta’ fazendo aqui? Perguntou Tiers.
- Eu moro na Ilha. Vem! Vamos ate’ em casa e eu te conto tudo...
- Mas, você esta’ trabalhando... Não vou te atrapalhar? Disse Tiers.
- Não! Vamos... Disse Olinda enquanto guardava tudo e fechava o carrinho.
Tiers colocou a mala sobre ele e começou a empurra-lo, em direção a casa de sua amiga.
Sem saber porque, Olinda não conseguia esconder as lagrimas que vagarosa e delicadamente rolavam por sua face.
Ele ficou calado ao perceber, respeitando aquele momento intimo.
Em menos de dez minutos, por entre atalhos bucólicos, estavam na porta da casa de Olinda, na Praia da Moreninha. Ela abriu o portão, guardou o carrinho e convidou Tiers a subir.
A escadaria era longa. Os dois subiram calados. Ao chegar `a varanda da casa e se voltar para a praia, não pode conter sua admiração : “Que maravilha!” Exclamou.
Virou-se para Olinda que, de cabeça baixa, ainda com lagrimas em seu rosto encostava em uma parede da varanda, calada...
- Esta’ tudo bem? Estou te aborrecendo? Perguntou, com uma voz terna e carinhosa.
- Não! Eu so’ estou envergonhada. Respondeu Olinda.
- Envergonhada de que? Não vai dizer que me vendeu bolinho velho...
Olinda sorriu, tentando se descontrair, limpando o rosto.
- Vem! Senta aqui! Me conta tudo! Desde a ultima vez em que nos encontramos...
O relato foi longo e emotivo... Começou por sua infância, relatou sobre seu namorado que a “vendera” a um conhecido para pagar uma divida, falou sobre a tristeza de ter perdido os pais em um acidente de carro, a solidão de viver sozinha, sem amigos, a crueldade de muitas pessoas que cruzaram seu caminho...Explicou sobre uma serie de infortúnios ate‘ culminar com o episodio do atentado a um jovem de quem a vida salvara... Relatou como conheceu a Praia da Moreninha, após ter lido um romance ali encenado, o sacrifício que foi comprar aquele pedaço de paraíso... Por horas a ouvia com atenção, vez por outra arrumando os cabelos de Olinda que delicadamente caiam sobre seu rosto.
O mesmo carinho, a mesma atenção , a mesma delicadeza que ela rejeitara, que poderia ter sido parte permanente se sua vida ali estavam novamente, ao seu encalço. Ha’ muito tempo Olinda não vivia momentos tão ternos, cheios de emoção ... Que contraste com os últimos dias em que, nas ruas do Rio de Janeiro, procurava por quem pudesse pagar mais por sua companhia rigorosamente cronometrada. Ou mesmo comparado com o marasmo que seus dias haviam se tornado.
E’ verdade que estava segura, em paz mas, era como se estivesse deixando sua vida passar por ela, carrega-la, ao invés de vive-la.
Tiers ouvia tudo atentamente, sem dizer uma palavra. Quando ela se calou, ainda consternada, segurando sua mão convidou-a para almoçar no Rio, ou em seu local preferido naquela Ilha encantadora.
- Que tal se eu cozinhar para nos? Disse Olinda.
- Melhor ainda! Respondeu Tiers, que havia denotado muita emoção e ansiedade em
Olinda enquanto conversavam... Queria lhe dar tempo para relaxar, descontrair,
poder respirar aliviada, tomar consciência que aquilo tudo ja’ fazia parte do passado,
fato que, talvez ela ainda não tivesse se dado conta.
- Quer que eu compre alguma coisa para você preparar? Indagou Tiers.
- Abre esta porta atrás de você e da’ uma olhada. Instruiu Olinda.
Ao olhar para o lado de fora, pela porta da cozinha, pode observar um terreno que subia a encosta do morro, parecendo não ter mais fim. No ponto mais alto que sua vista conseguia alcançar, um jardim Japonês com centenas de plantas e flores de cores harmoniosas. Uma escada em pedras que, la’ de cima, terminava no final de uma área gramada, ao lado de uma horta repleta dos mais diversos tipos de legumes e verduras... O perfume das hortaliças, e especiarias misturando-se com o cheiro de jasmim e outras flores davam `aquele local uma fragrância que dificilmente seria esquecida.
Tiers estava perplexo. Sabia que Olinda vivera uma vida cruel mas, voltar diariamente para aquele local, certamente teria um efeito catalizador, capaz de redimir qualquer “pecado”.
Estava imóvel. So’ poder olhar tudo aquilo, sentir aquele perfume valia mais do que um mês de ferias em qualquer parte do mundo...
Olinda, orgulhosa, vagarosamente chegou a seu lado, com cuidado para não tira-lo do transe em que momentaneamente vivia.
- Bem vindo ao meu mundo particular... Disse ela, de bracos cruzados, com um sorriso
quase imperceptível, com o rosto ainda marcado pelas trilhas das lagrimas que
espaçadamente insistiam em abrir novos caminhos como se estivessem tentando
leva-la a de volta um passado não muito distante.
- Olinda! Isto e’ uma maravilha... Nunca vi nada como isto... Não consigo sair daqui...
- Obrigado! Vem, vamos escolher o que comer... Disse ela, pegando Tiers pela mão e
o conduzindo em direção `a horta.
Enquanto Olinda cozinhava, com um cálice de vinho `a mão, Tiers a observava a uma distancia discreta. Sem muita maquiagem, parecia um pouco mais velha. Suaves rugas cicatrizavam seu rosto, compondo uma beleza indescritível. Quantos anos deveria ter agora? Pensava... Talvez trinta e cinco? Seu corpo parece estar melhor do que sua lembrança fotografara... Os cabelos dessarrumados lhe davam uma beleza incrível. A voz que ouvia, vez por outra, indagando algo ou pedindo que lhe passasse isto ou aquilo, era de uma suavidade musical acolhedora... Uma mulher perfeita... “Agora me lembro porque me apaixonei por ela” Pensou...
Tiers estava quieto. Muito pensativo para o conforto de Olinda...
- O que houve? Você esta’ tão calado... Disse Ela.
- Muita coisa ao mesmo tempo... Te encontrar assim, inesperadamente...
- A quanto tempo você mora aqui?
- Uns cinco anos... Quando comprei a casa, estava meio abandonada. Aos poucos a
restaurei ao projeto inicial, depois construí o jardim, a horta... Nos finais de semana
aqui ficava, reclusa, tentando esquecer, fingindo ser uma pessoa completamente
diferente daquela que “passeava” pela Cinelândia.
A mesa rustica que ocupava a pequena sala de jantar estava caprichosamente decorada. A simplicidade daquela casa dava ao ambiente um toque de sofisticação difícil de igualar.
Aos poucos, conversando sobre amenidades durante o almoço, Olinda começou a se descontrair, havia ate’ sorrido algumas vezes ao ouvir a historia da saga penilica pela qual seu convidado havia passado `a procura da cura para um problema que, na realidade, não existia.
Ao som de Miles Davis, Oscar Peterson e outros mestres do Jazz, a noite encontrava os velhos conhecidos que ainda trocavam confidências sentados `a varanda, tendo a praia da Moreninha como paisagem principal.
- Quais são seus planos, esqueci de perguntar... O que esta’ fazendo aqui? Disse Olinda.
A DuAssiens cresceu muito. Assumi o cargo de Diretor Internacional e antes de
começar a viajar pelas fabricas resolvi tirar alguns dias de ferias...
- E veio para em Paqueta'? Disse Olinda.
- Você sabe que esta e’ a primeira vez que venho aqui?
- Esta' arrependido... Pela surpresa? Indagou Olinda.
- Sabe? Agora pensando bem... Ainda não consigo entender porque você não quis
casar comigo... Sempre achei que você gostava de mim...
- Eu me sentia suja. Não era digna... Alem do mais você era tão jovem... Antes de
pensar em romance, de amar alguém, teria que me redimir, me livrar dos pecados,
ser digna...
- E agora? Perguntou Tiers.
- E agora o que? Disse Olinda.
- E agora, ja' se redimiu! E agora, ja' se livrou dos pecados! E agora, ainda sou muito
jovem! E agora, você casa comigo?
Olinda levantou a cabeça espontaneamente assustada, arregalando os olhos e disse:
- O que?
- Você não tem namorada? Ou gosta de alguém? Perguntou Olinda.
- Tive muitas namoradas, centenas de namoradas... Mas depois da minha luta pela
manutenção do meu xara' aqui, nunca mais tive ninguém. Me cansei de aventuras,
cheguei a conclusão que minha adolescência havia terminado havia muitos anos.
Sabe? Depois daquele dia que você de deixou na Cinelândia, meu coração aos
poucos enrijeceu... Por um lado, gostava de você, da tua companhia, gentileza,
carinho, atenção , mas tinha medo que alguém me reconhecesse a teu lado e te
causasse problemas. Disse Olinda.
Sentados juntos, Tiers ainda “brincando” com fios de cabelos de Olinda entre seus dedos, a puxou delicadamente para perto, segurou seu rosto e a beijou amorosamente. Ela nem lembrava da sensação de um beijo. No pouco tempo em que se conheceram no passado, nunca haviam trocado um beijo.
Sentimentos novos começaram a invadir seu corpo, sensações que nem lembrava existir a dominavam, sua mente urgia por carinho, desejo de possuir um homem, como jamais havia tido oportunidade, iniciar um contato, dominar alguém, se entregar, ao invés de fingir... Gritar de prazer, ao invés de chorar de dor. Seu primeiro namorado era machista, a usava para sua própria satisfação , ignorava o que ela sentia. O amor que iludia seus pensamentos estava apenas em sua mente, não na realidade daquele primeiro relacionamento de menina.
Em poucos minutos percebeu que as ideias que fazia de Tiers eram completamente diferentes. Se `aquela época soubesse que iria experimentar todas estas sensações, certamente não teria sido tão fácil se separar dele.
A noite de amor foi intercalada por pequenos cochilos esporádicos...
Os primeiros raios de sol refletidos nas águas da Baia da Guanabara feriam delicadamente aqueles olhos mal dormidos, saciados e satisfeitos...
- Vem! Deixa eu preparar um cafe’ para nos... Disse Olinda, levantando sua “presa” pela mão...
- Eu quero aqueles bolinhos de ontem... Disse Tiers, abracando o corpo semi nu de
seu antigo amor, pelas costas, fechando o roupão ainda aberto que mal a cobria.
Apos ao desjejum, decidiram ir `a praia que desde o dia anterior ele admirava. Ali perderam a manha inteira, descontraídos, felizes, interrogativos...
A mesma rotina do dia anterior se repetia. Tiers adorava estar na cozinha, ao lado de sua companheira. Não sabia cozinhar e, talvez por isso mesmo, admirasse tanto a destreza, riqueza de movimentos de um lado para o outro, aqui e ali, abrindo portas de armários, deitando especiarias em panelas semi abertas, regadas ao vinho, azeite, leite de coco...
- Tive uma ideia! Me diz o que você acha... Disse Tiers, enquanto relaxados, sentados
`a varanda com as pernas esticadas ainda saboreavam o paladar do almoço, que
recalcitrantemente permanecia em suas bocas...
- Vamos viver aqui! Trabalho de segunda a quinta... Quando tiver que viajar você me
acompanha... Em reuniões de negócios, nada melhor do que uma esposa para
transmitir confiança e responsabilidade. Afirmou Tiers.
Olinda olhava para ele, contrita, pensativa...
- Vamos ate' o apartamento de meu irmão amanhã. A esposa dele te ajuda com os
preparativos para o casamento. Ainda tenho um mês para nossa lua de mel, aqui
mesmo, se você não se importar.
- E sua casa? Onde você mora? Perguntou Olinda.
- Em Ipanema, na Vieira Souto... Poderíamos morar la', se você preferir... Disse Tiers.
- Sabe? Em um dia tive mais emoções, carinho, amor do que em toda minha vida...
Tenho medo... Confessou Olinda.
- Meu amor! Eu penso que nossa vida e' como uma estrada. Quando nascemos
estamos no ponto de partida. `A medida em que por ela caminhamos encontramos
desvios, alguns deles, depois de algum tempo voltam `a mesma estrada, outros nos
conduzem ate' o abismo. Ao entrarmos em qualquer destes desvios não sabemos
antecipadamente ate' onde seremos levados mas, temos sempre a opção de
voltarmos e buscar outro caminho se, daquele no qual estamos avistarmos o
precipício. Você percorreu o seu caminho. Resolveu parar, refletir, se purificar, como
você mesma disse, antes de continuar. Esta e’ a segunda vezes que nossos
caminhos se cruzam... Por acidente, ou por destino, ou por coincidência... Podemos
ignorar tudo e seguirmos atalhos separados ou, podemos juntar nossas mãos e
percorrermos juntos o resto da estrada a nos destinada. A decisão e’ nossa.
Ninguém nos obriga, ninguém nos impõe. Se o que experimentamos nos agrada,
devemos repetir... Você me agrada, quero te repetir sempre, dia apos dia... Quero
poder segurar tua mão e agradecer a Deus pela oportunidade de ter te encontrado...
Duas vezes...
Olinda levantou, vagarosamente caminhou ate' a sacada da varanda, olhou para Tiers, correu em sua direção, sentou-se a seu colo e o cobriu de beijos sem deixa-lo respirar...
- Armand, meu irmão! A Estela esta’ ai?
- Tiers? Respondeu Armand, ao atender o telefone. Onde você esta’? Finalizou...
- Presta bem atenção... Disse Tiers. Amanha vamos nos encontrar para ela ajudar
Olinda a organizar nosso casamento...
- Quem e’ Olinda? Que casamento? Respondeu Armand.
- Olinda e’ minha noiva. Vamos nos casar...
- Tiers, você não tem nem namorada... Lembrou Armand.
- Eu sei! Encontrei ela ontem...
- Seu maluco! Você vai casar com uma mulher que conhece ha' um dia?
- Não! Ha' muito tempo. Depois eu explico.
- Mas teu pinto só serve pra fazer xixi. Teu pinto esta' morto... Ela sabe disso?
- Isso e’ o que você pensa! Você precisa ver o que aconteceu ontem... Aquele monte
de médicos não sabem nada... Amanhã, pergunta a Olinda se ela segurou e brincou a noite inteira
com um pinto morto...
Copyright 2013 Eugenio Colin
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
WORDS
Words
It is very intrestnig to realize
how do thnigs work whitin our mind...
Look at the words, for an exmaple.
Tehy can tell thgins of any kind.
how do thnigs work whitin our mind...
Look at the words, for an exmaple.
Tehy can tell thgins of any kind.
How do we read, wehre do we start?
From the begininng or from the end?
If everthriyng was wirtten wonrg,
Wuold we be able to undsretand?
I've learend a lot thgourhout my life,
I had surpsries at many times,
I've seen impisosbles tihngs happen,
Some very stnrage, some otehr fines...
But it was hrad to just beleive
what I have read anhoter day...
No matter how the wrods are wirtten,
we awlays raed them the same way.
And piayng attnetion to waht I said,
in many wrods taht you jsut read,
only the fsirt and the last letter
are in the order taht it shulod matter.
This poem was written in 2004... In a way, it was the beginning of a long series of poems, novels and short stories I've been written since.
At that time I've learn that we read a word in its entirety, not only the characters which form them.
As a matter of fact, I read that when looking at letters, the reader activates a specialized part of the visual system that would coordinate this action with the phonological system he has in his "brain database". As the reader seeks phonological information from print, it puts a kind of "pressure" on the visual system to recognize that information, sending back to the brain as a silent reading or speaking the word.I thought it was interesting and wrote the poem...
In a test, a few days after, I realized that some people would find a few mistakes, not all of them.
Later, this poem was used in training classes for new nurses of a local hospital, on the town I used to live at, to show them the importance of attention to details...
In other words, check if the doctor did not leave a scalpel inside the belly he just finished the surgery on.
Oh!... In that case, don't be afraid to tell him, preferably before the closing stitches are done. And, when you do that, use the right words.
Copyright 2013 Eugenio Colin
domingo, 22 de setembro de 2013
INSPEÇÃO
Inspeção
A Casa da Criança era uma estabelecimento exemplar... La’ tudo dava certo. Os alunos eram felizes e adoravam a escola, os professores carinhosos com as crianças e dedicados ao trabalho...
Neste semestre Josefina Grosso Safada havia sido eleita a melhor professora da escola. Seus alunos porem não eram os melhores colocados nas competições escolares mensais mas, se alguem falasse mal da professora, eles viravam bicho. Josefina era idolatrada...
Alguns pais de seus alunos porem, reclamavam `a diretoria que os meninos e meninas nem liam muito bem e estavam atrasados em relação `a outros meninos da rua que cursavam a mesma serie.
Um dia, resolvendo desvendar o mistério, o diretor da escola mandou instalar uma câmera oculta no teto da sala de aula de D. Safada bem sobre a mesa onde ela sentava. Pode constatar então, que ela ficava a aula inteira, com seu computador aberto, procurando namorados pala Internet. Os alunos, faziam o que queriam, liam revistas, rabiscavam as carteiras, “namoravam” as colegas... Tudo o que tinham direito. A única coisa que não faziam, instruídos pela professora, era algazarra. Assim, sem gritaria, todos pensariam que estavam estudando...
Professor Merdolino Mendonça, o diretor da escola ficou revoltado.
Não querendo se complicar com o sindicato, na tentativa de despedir a “melhor professora do semestre”, decidiu bolar um esquema no qual ela pudesse ser despedida sem que a escola tivesse participação no evento.
Naquela segunda-feira foi anunciado que todas as salas passariam por uma inspeção do Ministério da Educação.
Josefina Safada porem era esperta... Combinou com os alunos, que estavam muito nervosos, ja‘ que tinham consciência que não sabiam nada, que os ajudariam. Quando o Inspetor estivesse na sala, fazendo perguntas, ela descobriria uma maneira de ajuda-los. Instruiu que, na duvida, olhassem para ela, disfarçadamente.
No dia marcado, o Inspetor explicou `a todos que escreveria palavras no quadro-negro e escolheria um dos alunos para soletrar a palavra.
Safada estava preparada...
O Inspetor então escreveu a primeira palavra em letras maiúsculas bem grandes, para não haver duvidas. CANETA.
Virou para a sale e, apontando para um menino disse:
- Você, na primeira fila, pode soletrar esta palavra?
Olhando para a professora assustado, percebeu que ela balançava uma caneta entre os dedos. Não titubeou...
- CA-NE-TA! Disse o menino.
- Muito bem! Disse o Inspetor.
Voltou-se para o quadro novamente e escreveu; BORRACHA. Virando-se para a classe falou:
- Agora a menina com blusa vermelha na segunda fila. Soletre para mim!
BO-RRA-CHA! Disse a menina, que entendeu o esquema e, olhando para a Professora, viu que ela agora brincava com uma borracha.
- Muito bem! Repetiu o Inspetor. Agora você, sentado em baixo da janela, pode soletrar para
mim a palavra que escrevi?
- BO-TÃO! Exclamou o menino que viu a professora brincando com um dos botoes de sua blusa.
- Professor Merdolino, os meninos não estão nada mal... Ponderou o Inspetor, dirigindo-se ao Diretor da escola.
- Mais uma pergunta para você ai na ultima fila, com camisa preta. Disse Inspetor...
Virou-se para o quadro e escreveu: SINO.
O menino olhou para a professora que balançava a mão para cima e para baixo, com os punhos cerrados, como se estivesse segurando algo.
A principio, o garoto não entendeu bem os gestos confusos de sua professora, mas depois, pensando melhor, abriu um sorriso e falou:
- PU-NHE-TA!.
Copyright 2013 Eugenio Colin
terça-feira, 17 de setembro de 2013
O SOL
O Sol
Escrevi sobre o mundo, versei sobre a lua,
a mesma que `a noite clareia a rua
tão triste e escura a quem, de alma nua,
procura na vida alguem pra ser sua...
Falei sobre o mundo que tu me revelas
que muitos ainda pensam, so’ existe em novelas.
Tentei com a lua te dar um presente,
faze-la so’ tua, deixar-te contente...
Agora, o amanha esta’ quase chegando,
ainda dormimos no outro pensando,
de longe o futuro ainda sonhando...
Em breve, o sol estara’ clariando
os dias que tristes, `as vezes chorando,
sentimos saudades no futuro presente
que aguas passadas, lembrando contente
lavarão as tristezas daquele momento
que ainda traremos em algum pensamento...
Amanhã , o hoje chegou lentamente,
trazendo sorrisos, lembrando `a mente.
E o sol, que custou tanto tempo nascendo,
corpos, corações, estara’ aquecendo
e juntos, mãos dadas, lembramos do mundo
ainda, novamente, mesmo que num segundo,
te conto de como quase te dei a lua,
de como queria faze-la so’ tua
pra ver o sorriso que exibes agora
fazendo de todas, esta, a melhor hora
de muitas que sei viveremos somente
manha, dia e noites de amor permanente...
Copyright 2013 Eugenio Colin
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
A FONTE DA JUVENTUDE
A Fonte da Juventude
Alcebiades Aristóteles Antônio Antunes Arantes da Anunciacao Almeida de Sa’, um renomado pesquisador, que desde que se formara em medicina sempre dedicara boa parte de seu tempo em procurar solução para doenças e estados patológicos crônicos que afetava seus pacientes, era mais conhecido como Dr. Sa’.
Dr. Sa’ era um incurável ideológico romântico. Achava que poderia e, se não pudesse, ao menos havia tentado, resolver os problemas de saúde da humanidade.
Para ele, a maior riqueza do ser humano era a saúde. “Um duro com saúde vai ter sempre condição de trabalhar por dias melhores”, dizia constantemente...
Dr. Sa’, poderia facilmente passar por um galã de novelas. O homem tinha quase dois metros de altura, forte como um boxeador, uma saúde de ferro, quando perguntado, dizia que nunca se lembrava da ultima vez em que esteve doente.
Funcionarias eram difícil manter emprego em seu consultório. Não que não gostasse de mulher, pelo contrario, mas achava que não tinha tempo para se dedicar `a família ou a uma relação séria. Quando estava com vontade de “extravasar” seus “sentimentos” acumulados por algum tempo, procurava um Strip Club e, de la’ saia acompanhado por uma “atriz”para mais uma noite de aventuras inconsequentes que, segundo normas rígidas por ele mesmo estabelecidas, depois daquela noite nunca mais repetiria a mesma cena com a mesma “atriz”.
Ultimamente porém, Dr. Sa’ estava muito envolvido em seu novo projeto. Uma serie de expedições `a Amazônia onde, com uma equipe de médicos e enfermeiras que havia formado, permaneceria por três meses cuidando de pacientes carentes.
Este programa era financiado por sua própria fundação com auxilio da UNESCO e outras entidades filantropicas.
O mesmo projeto de iniciativa do governo federal la’ comparecia de seis em seis meses. Assim sendo, o seu projeto preencheria o vácuo, contribuindo melhor para o auxilio da população local.
Cada viagem cobria uma área especifica naquele enorme território. Desta vez o destino era Piniquim bem no centro da Amazônia.
Para facilitar e dar maior conforto aos médicos e enfermeiras que o acompanhariam, as viagens eram feita por transporte aéreo em cooperação com a FAB.
O cenário visto do alto era realmente amedrontador. Uma enorme área verde, aparantemente impenetrável. O único meio de transporte para aqueles pequenos povoados indígenas eram as hidrovias que, de la’ do alto, sumiam na vastidão do cenário.
Estavam quase chegando ao pequeno aeroporto quando, de repente, uma enorme tempestade se armou, justamente no momento em que o avião começava a descida de aproximação.
No meio de toda aquela água que do céu despencava, um raio atingiu a asa direita da aeronave, paralisando um dos dois motores. Alguns entraram em panico imediatamente. Nanando, um dos médicos que sofria de insonia, logo se arrependeu de ter brigado com sua noiva, razão pela qual havia aderido `a expedição; so’ porque ela vivia se recusando a dar pra ele, `as altas horas da madrugada, o que ele achava ter direito, mesmo ser ter mencionado casamento uma so’ vez, em cinco anos de compromisso.
Dr. Sa’ havia ate’ sugerido algumas vezes que se enturmasse no mesmo “Clube” que frequentava, se quisesse, resolvendo o problema ali mesmo em uma das salas vip, nos fundos do estabelecimento mas, Nanando era fiel `a sua noiva.
O panico ainda era geral quando o piloto avisou que se via obrigado a realizar um pouso forçado. Todos se seguraram da melhor maneira possível, alguns que nunca haviam rezado em toda a vida, aprenderam rapidinho.
O piloto estava tentando visualizar um rio mas estava difícil, sem muita claridade, com muita chuva, e arvore a dar com o pau. Finalmente, decidiu que não podia esperar mais... A porrada foi tão grande que so’ se via caixa subindo, gente descendo, vidro quebrando, agua entrando na cabine, explosões do lado de fora, faiscas do lado de dentro... Tudo que teriam direito se estivessem protagonizando uma superprodução hollywoodiana sobre desastre aeronáutico. Aquilo durou apenas alguns segundos que mais pareciam uma hora para os que la’ estavam. Finalmente... Silêncio total por alguns instantes, pouco a pouco, alguns gemidos, começaram a se ajudar uns aos outros... Por incrível que possa parecer, apenas alguns cortes e hematomas que começavam a ser notados nos bracos, pernas e rostos que ainda demonstravam pavor.
Dr. Sa’ começou a, muito superficialmente, examinar um por um, constatando que nada mais sério havia acontecido. Estava tão preocupado que nem percebeu um enorme corte em seu braco que sangrava profusamente. Um dos médicos aplicou um torniquete que temporariamente resolveu o problema.
Agora a chuva havia parado. O céu estava limpo e a claridade da lua era a única iluminação disponível `aquele momento.
Abriram a porta do avião com cuidado e resolveram explorar a área imediata onde o avião havia parado, para se certificar que poderiam esperar pelo dia com as portas abertas. Sem muito caminhar, Dr. Sa’ pode ver, sem muita clareza, uma pequena arvore com folhas bastante grandes que se fechavam ligeiramente `a medida que eram tocadas. Notou também que elas eram quentes, mesmo estando em uma floresta tropical em uma noite úmida.
Cortou uma das folhas, envolveu seu braco cortado e a amarrou com um rolo de gaze, solto de uma caixa, no interior do avião.
Arrumaram da melhor maneira possível o que ainda estava espalhado e foram dormir.
O sol, refletido em uma das asas ainda presa na fuselagem, acordou a um por um. Puderam perceber que, no local onde haviam “pousado”, a água do rio era bastante clara e límpida. Dr. Sa’ resolveu então limpar seu braco e agora, com a luz do dia, poder avaliar melhor a profundidade daquele corte.
Procurou uma toalha, agua oxigenada, um pouco de álcool e caminhou em direção ao rio. Notou porém, para sua surpresa, que aquele corte, apesar de muito profundo não doía ou incomodava, nem um pouco. Se abaixou perto da água que corria vagarosamente e, com muito cuidado começou a desamarrar a faixa que envolvia a folha que protegia o corte. Assim que desprotegeu o braco, gritou por Nanando e outros médicos que o haviam ajudado a cobrir o corte.
Todos chegaram correndo assustados, e para o espanto geral, aquele enorme corte estava quase que completamente cicatrizado. Somente uma pequena linha vermelha lembrava que, apenas algumas horas atrás, uma laceração estava ali presente.
Dr. Sa’ estava intrigado... Que planta seria aquela? Que poderes medicinais possuía? E’ claro que isto seria alvo de estudos muito mais detalhados.
Resolveu então montar o Centro Atendimental Geral Ambulatorial Da Amazônia, CAGADA, como se lia na sigla, ali mesmo. Quem sabe poderia se utilizar daquela planta maravilhosa para aliviar seus futuros pacientes...
Os responsáveis pela logística daquela expedição se encarregaram de montar um esquema de transporte que trariam os pacientes ate’ ali. Dr. Sa’ não queria se afastar de sua descoberta. Naquele mesmo dia, enquanto todos se encarregavam de fazer a CAGADA de pe’, ele ligava seu computador tentando pesquisar a respeito de sua descoberta ocasional.
Dois dias depois, começaram a chegar os primeiros pacientes. O Centro Odontológico era um dos mais procurados. Muitos problemas visuais também eram frequentes... Para cortes e pequenas lacerações localizadas, Dr. Sa’ agora contava com um aliado poderoso. Sua planta miraculosa.
Naquele mês, em apenas um dia , a populacao local não pode contar com a CAGADA que tao bem lhes serviam, devido a tempestade que arrebatou sobre a região.
Mas, Dr. Sa’ não estava com muita sorte em suas pesquisas. Ate’ agora não tinha a menor ideia sobre aquela planta miraculosa. So’ sabia que funcionava...
Um dia chega uma senhora que acabara de se ferir na perna com um facão, enquanto desmatava parte do terreno onde sua palhoça se localizava.
Ao ver aquele corte, Dr. Sa’ ja’ sabia o que fazer... Assim que pegou uma das folhas e voltou, ouviu a paciente dizer sorrindo:
- Ah! O senhor vai botar No seu cu?
A primeira reação do medico foi responder: “No seu, sua idiota!” Mas, não queria se rebaixar tanto, resolvendo ignorar o insulto.
- O que a senhora disse? Perguntou então, um pouco desconcertado pela verborreia ofensiva da
paciente.
- A planta que o senhor segura... O nome dela e’ No seu cu... Repetiu a senhora.
- A senhora conhece esta planta? Indagou Dr. Sa’
- Meu falecido marido usava muito...
- A senhora sabe como soletrar este nome?
- Sei não moço! Mas o nome e’ esse... Disse a senhora.
Ao dar o dia por encerrado, depois do ultimo paciente deixar a CAGADA, chamou Dr. Nanando. Ja’ que ele não dormia mesmo, pelo menos poderia ajudar na pesquisa daquela planta.
Tentaram varias opções de pronuncia ate’ que, finalmente, depararam com uma pagina da África, onde descobriram artigos falando sobre plantas exóticas ate’ hoje desconhecidas pela humanidade. Por fotos e descrições de varias plantas, por comparações e medidas, chegaram `a conclusão que haviam descoberto algo que lhes dariam muita satisfação, algo lindo, valioso, maravilhoso, “Nuceucuh”.
Agora, com o mistério desvendado, era so’ continuar as pesquisas e, imediatamente, publicar o mais que pudesse no Jornal de Medicina, para no futuro estar apto a clamar a autoria da descoberta, se isto ainda não tivesse sido feito.
Os dias se passavam e cada vez mais o ambulatório era procurado. Síndromes das mais variadas eram cuidadas. Dr. Sa’ havia conseguido ate’ envazar aquela planta, misturando parte de suas folhas picadas com pequenas porcões de álcool, éter sulfúrico, óleo de amêndoa e água destilada. A ideia era que o álcool pudesse desinfetar, o éter ajudar na vaporização, o óleo tornar a mistura mais aderente e a água espalhar os efeitos medicinais daquela solucao.
Em uma manha, logo apos ter, delicadamente recusado a oferta de um paciente de comer rabo de jacare’ como seu desjejum, alegando que sua primeira refeição diária era sempre o almoço, além de ser vegetariano, mentira deslavada que qualquer dono de churrascaria da cidade onde residia poderia facilmente desmentir, atendia seu primeiro paciente do dia. Tratava-se de uma senhora de, aparentemente, setenta anos com a pele de ambos os bracos cobertas de queimaduras que, embora leves e superficiais, segundo ela, incomodavam muito. O que mais o repugnava naquela paciente era que ela possuía apenas dois dentes, um na arcada superior o outro na inferior. Muito delicadamente, tentando não ferir a auto-estima da senhora, ele sugeriu que ela procurasse o Centro Odontológico que, certamente a ajudaria da correção daquela anomalia.
A senhora, sorrindo respondeu: “Que nada douto! Isso são minhas faca. Com esses dente eu corto ate’ cana de açúcar...”
Apos pensar que talvez cortar tanta cana de açúcar tenha sido a causa daquele sorriso esdruxulo, Dr. Sa’ não titubeou. Pegou um frasco da nova mistura que já havia preparado e, depois de limpar os ferimentos, a instruiu que usasse duas vezes naquele dia. A primeira vez dentro de quatro horas e, a segunda antes de dormir.
Dentre os vários beneficios que aquela equipe estava trazendo a toda a populacao, um dos maiores, sem duvida havia sido a descoberta ocasional que um acontecimento inusitado havia tornado possível.
`A noite, Sa’ aproveitava a insonia de Nanando para que ele, de bom grado, segundo varias vezes havia verbalizado, transcrevesse progressos, descobertas e realizações em um diário que mantinham, organizando e descrevendo as atividades da CAGADA, o que diariamente faziam.
Estavam la’ a pouco mais de um mês quando, inesperadamente um helicóptero pousou no meio da CAGADA.
Desta vez não se tratava de um paciente que necessitava de atendimento urgente e sim o Governador do Estado que vinha pessoalmente agradecer por todo aquele esforco, dedicação, altruísmo por parte de Dr. Sa’ e sua equipe de profissionais abnegados. O Governador chegou ate’ a oferecer a construção de um Centro de Atendimento permanente, se aquele abnegado doutor se dispusesse a atuar como diretor daquele projeto, ali comparecendo apenas quinzenalmente.
Dr. Sa’ gostou da ideia e se propôs a pensar como poderia ajudar a este novo projeto se concretizar.
Mais tarde, apos a comitiva deixar o local, o atendimento aos pacientes continuava. Assim que chegou ao seu consultório, viu na sala de espera uma jovem, muito bonita, rosto angelical, cabelos negros e longos, olhos amendoados, usando um short tao curto e apertado que provavelmente estava impedindo a circulação sanguínea daquelas lindas coxas. Mas o que mais chamava atenção naquela jovem, alem da beleza, eram seus enormes seios que mal cabiam naquela blusa toda rasgada. De repente, teve saudades do “Entra devagar” nome daquele “Strip Club” que sempre frequentava e que uma vez havia sugerido `a Dr. Nanando.
- Em que posso ajudar `a jovem. Você não me parece doente... Disse Dr. Sa’, sem conseguir tirar os
olhos daqueles seios encantadores.
- O senhor não se lembra de mim? Disse a jovem.
- Você ja’ esteve aqui? Perguntou Dr. Sa’.
- Memoria curta doutô? Respondeu a jovem sorrindo.
Ao reparar naquele sorriso inesquecível, com apenas dois dentes, um em cima o outro em baixo, Dr. Sa' lembrava daquela senhora a quem havia sugerido, com cuidado para não ferir sua auto-estima, procurar o Centro Odontológico.
- O que aconteceu? A senhora me disse que tinha setenta anos... Indagou.
- Setenta e um! Fiz aniversário semana passada...Agora eu sou “senhora”? Ainda ha’ pouco não
tirava os olho das minha coxa e dos meu peito. De repente virei
“senhora”? O que que houve Doutô, brochô?
- Deixa eu ver os bracos. Melhoraram da queimadura? Indagou Dr. Sa’.
- Doutô! Tanta coisa pra vê e o sinhô que’ olha' meus braço?
- O que aconteceu? Indagou Dr. Sa’.
- Sei la’! O senhor e’ que e’ o médico. Cheguei em casa, bebi aquele liquido do vidro e,
uma semana mais tarde as ruga começaram a sumi’, os peito crescê, a coxa
engrossa’, a pele estica’ e agora to aqui doida pra agradecê ao sinhô. Se quise’
posso agradecê aqui mesmo no chão... Disse a “senhora” ja’ desabotoando a blusa,
concluindo...
- O pior e’ que to maluca pra dar uma trepadinha...
- A senhora não tem namorado?
- Doutô! Naquela tribo so’ tem homem com mais de quarenta ou menino com menos
de quinze. Além do que, índio anda pelado! O senhor ja’ viu o tamanho dos pinto deles? Aquilo
não da’ nem pra fazer cosquinha... O seu ainda não vi não mas não pode ser menor do que os deles.
`Aquela altura, Dr. Sa’ so’ pensava em sua descoberta. Havia ocasionalmente encontrado o que todos os pesquisadores do mundo sempre procuraram.
Acidentalmente aquela viagem havia se tornado no premio maior que jamais poderia ter alcançado. Agora teria algo muito mais importante a transcrever no Jornal de Medicina.
Ainda estava absorto em seus pensamentos quando ouviu:
- Doutô! Come’ qui e’... Tô aqui toda molhada. Vai querê ou não?
Dr. Sa’ olhou para aquilo tudo que se exibia `a sua frente, pensou, cocou a cabeça, lembrou do seu “Strip Club” e falou:
- Vamos fazer o seguinte... Procura o Centro Odontológico, arruma estes dentes e depois volta aqui
para conversarmos...
- Ta’ bem mas, primeiro agente trepa, depois cunversa... Disse a, “senhora”?
A “moça/senhora” saiu correndo mais do que um foguete...
Dr. Sa’ ponderava sobre ética profissional mas, agora queria saber se os efeitos daquela planta atingiam também a mente... Aquela senhora que antes tentava comprar uma televisão agora queria comprar uma cama nova. Pensando bem, teria que “pesquisar” mais sobre aquela total transformação alem de, e’ claro, estar em jejum por mais de dois meses, com as mãos todas machucadas, sem falar sobre outras partes do corpo, o que, tudo misturado, de certa forma, desculparia aquela atitude.
Pelo menos, enquanto ali estivesse teria companhia, para o bem da ciência e’ claro, e porque não dizer, de toda a humanidade, alem de ajudar `aquela pobre senhora, agora moça, carente.
Por um instante pensava mais alto. Premio Nobel de Medicina, mais dinheiro para poder ajudar a um maior numero de pacientes carentes e, quem sabe, uma companheira para esquentar as noites úmidas, `as vezes frias da Amazônia. E’ bem verdade que ela tinha setenta e um anos mas, pensando bem estava, gracas `a sua descoberta, agora estava melhor do que as “atrizes” do Entra Devagar.
A historia se espalhou rapidamente por toda a equipe. Todos se sentiam orgulhosos por poder trabalhar com aquele gênio da medicina que, mesmo o fato de ter feito uma descoberta acidental, que so’ se materializou por seu esforco, persistência e dedicação, não tiravam o mérito de ter encontrado Nuceucuh, a fonte da juventude....
Copiright 2013 Eugenio Colin.
sábado, 7 de setembro de 2013
VOCÊ
Você
Você e’ o sol, você e’ a lua,
você e’ a briza que foge na rua,
você e’ a noite, as estrelas do céu,
cabelos dourados, olhar cor de mel…
Você e’ o calor que em dias chuvosos
eu quero sentir em beijos carinhosos.
Você quem me lembra que a vida e’ bela
na coisas mais simples, na flor mais singela…
Você quem me faz cruzar oceanos,
me dando prazer que não tinha ha’ anos…
Você e’ a beleza que na mente eu via
deitada a meu lado, dizendo: Bom dia!
Você e’ quem tenho comigo, a meu lado,
quem me faz ser feliz, querido, amado.
Você e’ o amor que nunca pensei,
que antes senti, sofri ou chorei…
Você e’ o premio maior que um dia
de Deus recebi e, minha alma vazia
que nos dias vagava, que calma dormia,
que via um rosto que não conhecia,
acordou de repente, com muita alegria
feliz pelo amor que agora sentia…
Copyright 2013 Eugenio Colin
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